sexta-feira, 29 de março de 2024

"TÁ PAGO": Superação, Gratidão e Esperança

Quando tomei a decisão de ingressar em uma academia de ginástica, a preguiça mostrou seus músculos. O treino do primeiro dia foi épico. Transbordando suor, terminei com a pressão arterial nos pés. Esforçando-me para não ser notado, dirigi-me à saída vestindo o meu manto da invisibilidade. Não foi difícil perceber que o disfarce falhou quando ouvi meu nome com voz característica e cheia de energia. Tive que voltar, coisa que não faria se meu nome fosse José ou João, mas “seu” Heron não tinha outro. Fui surpreendido pela competente treinadora com um largo e alvo sorriso acenando a mão e dizendo: “Tá pago”. Sem entender muito bem o que aquela frase significava no contexto da academia, deixei pra trás aquele templo da saúde com a certeza de que em algum momento “Tá pago” já fez parte da minha existência.

No caminho de casa, a frase “Tá pago” abriu o baú das memórias. Uma delas era dos meus tempos de menino. No início de cada mês, recebia de minha mãe a tarefa de ir ao empório pagar a conta das compras a fiado. Em outras palavras, o empório era um mercadinho, e fiado, era comprar e deixar para pagar depois. O dono do empório recebia o dinheiro de minha mão e me entregava uma ficha com a relação das compras feitas no fiado. Mas não era apenas isso que confirmava o pagamento.


A conta paga me fazia voltar para casa com um brinde que podia ser um pacote de bolachas ou barras de sabão. Ambos eram intragáveis. Apesar disso, retornava satisfeito com o brinde e a ficha que fora o registro de uma dívida A ficha recebia um carimbo com duas palavras que até minha avó com cataratas avançada leria sem dificuldades: “TÁ PAGO” em letras maiúsculas na cor de sangue. Sim, ali estava o elo para a intrigante frase da treinadora.


Esta expressão, entre outras, passou a fazer parte do moderno mundo fitness. Porém, cada vez que a ouço, não posso deixar de pensar no poder transformador que ela me toca. As páginas iniciais da história revelam seu uso comum para a humanidade. Basta entrar no túnel do tempo e apontar para os dias de Cristo que o viajante encontrará o uso frequente de “Tá pago” em recibos de impostos ou na ficha criminal de infratores condenados. O total pagamento do imposto devido, ou o pleno cumprimento da pena imposta ao criminoso, faria que o documento contendo o escrito da dívida fosse totalmente riscado e escrevia-se no rodapé a expressão “Tetelestai”. Na língua grega, tal palavra significa “dívida paga” no tempo perfeito. Foi paga, está paga, e continuará paga.


A maneira mais dramática do uso desta expressão foi na tarde da primeira Sexta-feira Santa. Ela foi ouvida por quem se achava no Gólgota aos pés da cruz de Cristo. Seu derradeiro clamor foi uma espada que rasgou os céus com a expressão “está pago”, ou no original: “Tetelestai” (João 19:30). O único e perfeito Cordeiro sacrificial de Deus declarou que sua missão neste mundo estava completa. Naquele momento Ele garantiu com seu sofrer em meu lugar que o preço da dívida dos meus pecados estava pago integralmente. 


A dívida no empório renova-se a cada mês, da academia a cada treino, mas a dívida dos meus pecados foi paga por Cristo de uma vez por todas. Esta é uma transação completa, integral e perfeita, que me reconcilia com Deus. Portanto, a expressão “Tá pago” deixou de ser pra mim apenas uma frase casual ouvida na academia, mas um lembrete poderoso do sacrifício de Cristo e da redenção que me foi ofertada gratuitamente. Diante disso, posso sorrir largamente como minha treinadora e dizer: “TÁ PAGO”.


"e cancelou a escrita de dívida, que consistia em ordenanças, e que nos era contrária. Ele a removeu, pregando-a na cruz," Colossenses 2:14



quarta-feira, 22 de novembro de 2023

A escolha do vizinho

 A escolha do vizinho


Se você pudesse escolher seus vizinhos, a quem você escolheria?

Com sinceridade, muitos responderiam nomes de celebridades pelas características desejáveis que a mídia divulga. Outros diriam que estariam bem tendo sua casa ladeada por vacas num imenso pasto, ou quem sabe cachoeiras e lindas florestas inspirados pela onda do verde. Talvez eu me enquadrasse no segundo grupo, pois certa vez vi uma propaganda de imóveis no litoral anunciando que a grande vantagem daquele investimento era que o seu vizinho mais próximo estaria na África. Honestamente, isso me fez pensar e sonhar com a possibilidade de um dia investir nisso.

Penso que seria anormal alguém responder que gostaria de ser vizinho de pessoas doentes ou cheias de necessidades. Pois é, foi isso que aconteceu comigo na minha adolescência. Não fui morar ao lado deles, mas aquele casal com sua pequena mudança chegou e rapidamente entrou na casa ao lado da nossa. Não tão rápido quanto sua mudança a mulher entrou em sua nova casa, pois caminhava arcada carregando uma corcunda nas costas. Uma imagem grotesca, e mais impressionante ainda é o que teríamos nos próximos anos de vizinhança.

- “Irrrrrrmaaaa....Irrrrmaaaaa...”. Aqueles gritos roucos e arrastados tornaram-se rotina e não tinham hora nem dia para invadirem meus ouvidos e estremecerem minha alma. Era minha vizinha - a dona Idalina, chamando pela minha mãe, ou melhor, gritando por socorro desesperada e quase sem ar. Quase sem ar porque sofria de asma e bronquite, o que obrigava ela a viver junto à janela sugando com avidez o ar como um peixe num rio sem oxigênio. Vivia como prisioneira daquela janela, pois dali ela não saia nem para dormir.

Mas o que agravava seu sofrimento mesmo era a indiferença que seu marido lhe concedia, somado a uma estranha hérnia que surgia de dentro da sua barriga como se um melão inteiro quisesse sair pelo umbigo. Esse era o motivo de seus gritos chamando sua vizinha, que prontamente corria para empurrar aquele “sei lá o que” pra dentro, já que as mãos da pobre mulher eram retorcidas como raiz e incapaz de fazer isso sozinha. Dizia ela que aquilo era macumba, que a namorada de seu marido havia feito pra tirá-la do caminho dos pombinhos.
Seu marido era uma figura simpática. Aquele típico senhor que ninguém imagina que faria mal a alguém. Geralmente com um guarda-chuva pendurado no braço andava bem vestido com roupas de linho. Certo dia, meu pai incomodado com a vida sofrida de sua mulher, perguntou o que ele já tinha feito para amenizar o sofrimento dela. Com um sorriso mostrando um dente de ouro disse que já havia feito uma promessa para um santo. A promessa era deixar a barba crescer, mas como isso estava difícil, pois sentia-se muito incomodado com a barba, pagou seu voto comprando uma pele de carneiro. Recortou-a na forma de longa barba, e fixando-a no rosto foi até o santuário entregar seu sacrifício. Desde aquele dia percebi que a pessoa mais próxima daquela mulher era sua vizinha mesmo.

A solidão dela encontrou a solidariedade da vizinha como o sedento encontrou as fontes no deserto. Certamente o Senhor que fez as fontes que saciam também fez o vizinho que vale mais que o irmão que está longe (Provérbios 27.10).
Dona Idalina, alguns anos depois, mudou-se para outra casa, mas continuou a receber cuidados de minha mãe e irmã até onde seu fôlego agüentou. Escolher amigos e inimigos pode pertencer a nós, mas escolher vizinhos é um mistério reservado ao Senhor a fim de mostrar-se presente na vida de muitos através do próximo mais próximo, dando-nos a oportunidade de andar duas milhas quando nos pedem uma.

Heron Caetano

Enviado por Heron Caetano em 23/08/2009

sábado, 15 de fevereiro de 2020

EPIFANIA NO ZOO


Caro leitor, pergunto-lhe, o que é comum encontrar nos zoológicos além dos bichos? Não espero compartilhamos do mesmo ponto de vista, porém aposto em gente e placas. Entre elas estão os animais, com expressões de indiferença e marasmo. Cada um em sua jaula assiste um vai e vem de seus visitantes exibindo tagarelice, selfies e risos debochados. Como epidemia, a irreverência e excitação ocupa os ares do recinto. Entretanto há uma jaula que seu morador não vê e nem ouve o mesmo que seus vizinhos.

É a jaula do leão. Guardado nela, ele gasta o dia em cochilos e circulando preguiçosamente. Não importa o que o felino esteja fazendo. Seu olhar quieto e seguro movendo-se sobre um andar macio exaltam sem holofotes sua glória. Mesmo cativo e fora de seu habitat, sua essência flui e impõe um clima de quase adoração aos que o assistem. Nota-se que apesar das grades oferecerem segurança aos que estão do lado de fora, elas não anulam o temor e sensação de ser um atrevimento estar diante da realeza encarnada naquela criatura. Minuto a minuto, silêncio e reverência se apossam do público na presença dele, e placas adormecidas em cada visitante vão se levantando. Placas que alertam, mas que também indicam uma direção, apontam para algo além do conhecido e tangível.

Senti que tais placas são latentes nos humanos, e revelam no indomável felino um ícone de um rei superior e supremo que materializou com um único sopro as selvas e a constelação de seres que as povoam. Um rei que habita na eternidade e que de seu trono compadece-se dos fracos que anseiam desfrutá-lo no porvir. O temível felino estaria espelhando o resplendor deste ser, o seu criador?

Se me enganei com as impressões, o passeio no zoo e o futuro terão igual desfecho para todos. Cada um com suas lembranças enquanto durarem, e a satisfação das curtidas nas redes sociais. Afinal, o que se pode esperar quando acredita-se que a vida não vai além de um irreverente programa no zoo? Porém, se um amanhã está agendado para estarmos diante de um sublime juiz, qualquer estilo de vida marcado pela altivez e autojustiça entrará pelas portas desta autoridade como a palha desafiando o fogo, e a cera indo a guerra contra as chamas.

Heron Caetano

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O sorriso do meu amigo


Resultado de imagem para sorriso amigoQuem tem um amigo tem tudo, afirmava meu franzino avô com alma corpulenta. Roberto Carlos reinou cantando que queria um milhão deles. A divina providência deu-me de graça mais que um. No meu caso falo em unidades e não em milhão. Um mais chegado que um irmão, outro cúmplice nos tropeços e acertos, e um que sorri.
Isso mesmo, eu tenho um amigo que sorri. O sorriso deste amigo não foi feito por clareadores ou próteses para agregarem mais um acessório ao seu selfie. Não lhe faltariam recursos para isso. Tampouco aprendeu em algum destes cursos de autoestima ou como conquistar pessoas. Nasceu com ele.

Robinson Crusoé ao descrever seu encontro com seu amigo Sexta-feira reflete e entende que Deus desproveu muitas pessoas das melhores faculdades mentais a fim de dar-lhes todas as qualidades para fazer e decidir o bem. No caso de meu amigo, vejo que Deus não poupou sabedoria, mas foi além dando-lhe um generoso e mágico sorriso.

Acho que meu sorriso é de chorar, mas de meu amigo esbanja fineza, simpatia e atenção. Se em seu velório o sorriso estiver no seu rosto imagino que não se ouvirá choros. Quando seus lábios abrem-se para sorrir é como tirar a tampa de um frasco de bálsamo. O ambiente se transforma com a fragrância alcançando todas narinas presente. O mesmo sorriso na face do garçom servindo uma porção amarga faria as papilas do cliente provar o doce. O general na batalha armado de tal sorriso converteria seus inimigos em aliados.

O poeta escreveu que as feras do campo refletem o poder de seu Criador, e com a licença da poesia arremato que tal sorriso me aponta a transbordante e sorridente graça de Deus a este que mal sabe sorrir.


19 Tipos de Sorrisos


Expressões faciais

A BBC americana publicou estudo que apresenta 19 tipos de sorrisos, mas apenas 6 deles são relacionados a bons momentos – os outros, geralmente, são máscaras que as pessoas usam diante da sociedade.


POSITIVOS

1. Sorriso Duchenne
O nome foi dado por causa de um neurologista do século XIX chamado Duchenne de Boulogne, que, infelizmente, fez processos cruéis com alguns pacientes até que um deles resultou nesse sorriso. Curiosamente, no entanto, esse sorrisão é associado a sentimentos genuínos de prazer e euforia. Ele costuma ser largo, intenso e envolve a contração de dois músculos: um deles fica na bochecha e puxa os cantos da boca para cima; e o outro, que fica em volta dos olhos, levanta as bochechas. Dessa forma, parece que seus olhos também estão sorridentes e sua alegria fica bem explícita.

2. Sorriso refreado
Por questões históricas de etiqueta, alguns países julgavam as pessoas que sorriam com os dentes como pobres,estúpidas ou até mesmo bêbadas. O sorriso refreado lembra o “chique” daquela época, mas hoje é aquele que você dá quando está, na verdade, tentando esconder que está feliz. As bochechas se erguem um pouco, mas os lábios ficam pressionados, como se você não pudesse sorrir naquela hora (tipo o que rola às vezes no meio da aula, sabe?). O sentimento é bom, você só tenta disfarçar. Você sabia que, no Japão, por questões culturais, ainda hoje a etiqueta dita que as emoções não sejam demonstradas em público? Por isso, o sorriso com os olhos, para eles, tem ainda mais impacto. A BBC destaca que é curioso, inclusive, a forma como eles digitam a carinha de sorriso no teclado: ao invés do tradicional :), eles usam ^_^.

3. Sorriso envergonhado
Se parece muito com o refreado e o que difere os dois, geralmente, são as bochechas vermelhas ou o leve movimento de cabeça para baixo e para a esquerda. De qualquer forma, é fácil perceber se o sorriso é refreado ou envergonhado de acordo com a situação em que a pessoa estiver envolvida naquele momento.

4. Sorriso namorador
Abra uma foto da Monalisa, de Leonardo da Vinci. É desse sorriso que estamos falando. Muitos psicólogos acreditam que o que está retratado no quadro é um sorriso namorador. Se trata de um sorriso sutil, misterioso, que geralmente vem acompanhado de uma olhadinha meio de lado. E aí fica aquele joguinho de olhar para a pessoa e virar o rosto quando ela olha para você.

5. Sorriso agradável de surpresa
Suas sobrancelhas levantam, seu queixo cai, sua pálpebra estica e então vem o sorrisão Duchenne. Acontece quando você está surpresa positivamente com algo bom. Tipo quando você encontra alguém que gosta muito e fazia tempo que não via.

6. Sorriso agradável de emoção
O nome já diz tudo: você está realmente gostando do que acontece e o sorriso é sincero, como o Duchenne, mas acompanhado das pálpebras levantadas!

NEGATIVOS

7. Sorriso de medo
De acordo com a BBC, ele foi herdado, provavelmente, dos chimpanzés bonobos. Quando eles estão com medo, mostram os dentes e puxam os lábios para trás, até mostrar a gengiva. De acordo com estudos de Darwin, isso rola para que todos os dentes fiquem à mostra como uma prova de que eles não vão morder. Nos humanos, o sorriso de medo tem o mesmo formato. Às vezes, até parece que é uma risada, mas se você reparar bem no resto da expressão corporal da pessoa, dá para notar que ela claramente está nervosa com a situação.

8. Sorriso miserável
Como o próprio nome diz, esse não é um sorriso feliz. Alguns psicólogos o associam a uma forma socialmente aceitável de mostrar que você está triste ou com dor – bem comum em pessoas com depressão. Esse sorriso é meio fraco, desanimado, assimétrico e completa uma expressão de muita tristeza. A BBC conta que pesquisadores da Universidade do Estado de São Francisco perceberam que esse hábito meio intuitivo não é algo que se aprende, mas que está programado no DNA dos humanos.

9. Sorriso qualificador
É exatamente esse o sorriso que as pessoas costumam mostrar quando têm que dar alguma notícia não muito agradável para dar. Ele, inclusive, deixa o clima meio tenso. Basicamente, o lábio inferior levanta um pouquinho e há um breve aceno de cabeça, como se você “sentisse muito”.

10. Sorriso de conformidade
Em termos de aparência, é muito parecido com o anterior. Só que quem dá esse sorriso geralmente é a pessoa que recebe o sorriso qualificador. É meio que uma resposta mostrando que você está tentando se conformar com a má notícia que acabaram de te dar.

11. Sorriso de resposta coordenado
Mais uma variação do sorriso qualificador. O que muda é o movimento de cabeça, que mexe para cima e para baixo, mostrando que você está concordando com alguma coisa.

12. Sorriso de resposta ouvinte
A expressão aqui também é a mesma do qualificador, só que ela costuma acompanhar o famoso “uhum” que você diz quando quer mostrar que está prestando atenção no que está sendo dito.

13. Sorriso de desprezo
Ele até parece um sorriso de encantamento, mas não se engane! Ele indica um pouco de desgosto e ressentimento, como se você estivesse julgando alguém. Mas como nesses momentos você não quer deixar transparecer, acaba dando aquele sorriso bonito, mostrando os dentes. A questão é que a boca não se curva tanto para cima e os cantos dela tendem a ficar meio apertadinhos.

14. Sorriso mau
A palavra alemã schadenfreude resume muito bem esse sorriso: sentimento de prazer ou satisfação ao ver algo ruim
acontecendo com outra pessoa. Trazendo para o português claro, seria rir da desgraça alheia. Só que como isso é muito feio, as pessoas tentam esconder e dão aquele sorriso meio macabro e congelado, como se estivessem irritadas. Pense nos vilões de filmes de terror que você vai saber bem como é esse sorriso.

15. Sorriso agradável de desprezo
O nome é esquisito, mas é porque rola uma mistura. Você tenta suprimir o sorriso e ele acaba saindo meio de lado, um canto da boca ou, às vezes, os dois.

16. Sorriso agradável de medo
Mais uma mistura, só que o sorriso fica escondido por meio dos lábios, que ficam apertados um contra o outro formando uma linha horizontal (sem mostrar os dentes).

17. Sorriso agradável de tristeza
O último sorriso que mistura duas emoções é esse. Você quer sorrir e, na tentativa de reprimir o ato, puxa os lábios para baixo e parece estar triste.

18. Sorriso falso
Ele é igual ao sorriso Duchenne, só que fingido. Mas as pessoas tendem a dar tanto esse tipo de sorriso durante a vida que ele costuma ser bem convincente. Para diferenciar, você tem que prestar atenção na situação toda. Se ele for muito abrupto ou persistente, por exemplo, pode ser que não seja verdadeiro. E geralmente ele não vem de forma tão natural no momento certo, como o legítimo sorriso Duchenne.

19. Sorriso de Chaplin
O sorriso de Chaplin é bem irônico. Os lábios são bem puxados para cima, sem mostrar os dentes, que os olhos até se esticam um pouco – é como se você estivesse zombando do próprio ato de sorrir.

fonte internet acessado em 15.10.2018 - 20:50hs
https://capricho.abril.com.br/vida-real/ha-19-tipos-de-sorriso-mas-apenas-6-deles-sao-de-alegria-sabia/


terça-feira, 29 de maio de 2018

Você conhece alguém com o nome Esperança?

Era um final de sexta-feira e sem preliminares disparei esta pergunta para minha colega de trabalho: - Você conhece alguém com o nome Esperança?. A inesperada resposta veio a galope: - Sim; a égua do meu pai! Foi um desfecho surpreso e divertido para a sexta.

Fiz a pergunta porque às vezes tenho a sensação que ela deve ser uma pessoa, e penso nela quase sempre, ou seja, no substantivo feminino esperança. Suponho ser prudente avisar já para evitarmos divergências nos pontos de vista, e se sua leitura terminar por aqui, os pingos nos is já foram postos.

Imagino-a como um ser quase etéreo que abençoa com fluidez e leveza todos que encontra por onde passa. Poucos a percebem quando chega ou sai, mas em quase todos imprime a certeza que esteve bem perto, tornando mais doce o modo de ver e pensar a vida. A aridez ao sentir e encarar presente e futuro é a denúncia que ela não está por perto.

Confesso que não são poucos os dias que rompem-se a mim com a sensação que ela não dormiu comigo. Nestes dias, após os pés tocarem o chão, é dada a largada em busca dela  copiando a iniciativa do escritor sagrado Jeremias que declamou “Quero trazer à memória o que me pode dar esperança” em Lamentações 3:21. Invariavelmente segue por quase todo dia essa peleja para pôr rédeas em meus neurônios tão disciplinados quanto os ventos. Em tais dias ficam bem as rédeas da esperança nas idéias assim como na égua que atende pelo mesmo nome.

A propósito, uma busca no google por pessoas com o nome Esperança levou-me a  uma página da internet com um levantamento inédito do IBGE; São números dos nomes da população brasileira baseado no Censo de 2010. Este interessante apontamento me convenceu que verei um raio cair duas vezes no mesmo lugar antes de encontrar alguém que atende pelo nome Esperança. E é bom que seja assim, pois minha curiosidade quase infantil ficaria muda diante da retórica indagação da carta de Paulo aos cristãos romanos: “esperança que se vê não é esperança; pois como pode alguém anelar por aquilo que está vendo?“ Rm 8:24.


Compartilho o link do IBGE Nomes no Brasil: https://www.ibge.gov.br/ censo2010/apps/nomes/#/search

sábado, 24 de dezembro de 2016

Ai de mim se não fosse o Natal

Chegamos a mais um Natal!

Ai de mim se não fosse o Natal. Não este Natal do tipo locomotiva que puxa os vagões do comercio, da indústria, e de serviços. Estes podem puxar para cima os lucros e os empregos temporários, mas são impotentes para levantar os cansados, os oprimidos, os enlutados, os famintos. Ai deles que só aumentam enquanto entra e sai Natal.

Ai de mim se não fosse o primeiro Natal. Este sim (e não os outros milhares) aconteceu para salvar o mundo. Mundo feito perfeito, mas que despencou. Queda feia, queda mortal. Caiu dos altos degraus da pureza, da justiça, do amor.

Ai de mim que querendo ou não neste mundo fui concebido contaminado com seu DNA. Ao nascer ganhei a passagem para um voo destinado à queda, precipitado da presença do criador, da face do Pai. Peregrino achei-me sem saber como voltar e nem para onde ir.

Ai de mim se não fosse aquela criança de Belem marcada para morrer com morte de cruz. Tomou para si a sentença que era minha. Morreu para ressuscitar. Reviveu para abrir caminho. Estreou a única rota para que um peregrino como eu fosse resgatado de volta ao Pai e à verdadeira vida sem fim.

Ai de mim se eu tivesse apenas votos formais de mais um feliz Natal para repetir a você e aos teus. Porem, anseio que as novas de alegria proclamada pelos anjos naquela noite revelem-se a você e família, levando-os como aos pastores e aos sábios ao encontro de Jesus: “Pois, na cidade de Davi, vos nasceu hoje o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos será por sinal: Achareis o menino envolto em panos, e deitado numa manjedoura. (Lucas 2:11-12)”.

quarta-feira, 13 de março de 2013

O MELHOR NEGÓCIO DO MUNDO


Quando estava concluindo a faculdade eu assistia, frequentemente, ao programa Pequenas Empresas Grandes Negócios. Sonhava em abrir meu próprio negócio. Mas, havia uma pergunta que atormentava meu sonho: qual seria o melhor negócio para se investir? A resposta que eu sempre ouvia de quem pensava para responder era pouco objetiva, mas bem razoável: depende. Depende dos interesses e metas e, é claro, de quanto se tem no bolso. Como minhas ideias eram tão vazias quanto meu bolso, o tempo passou e não abri nem uma pequena empresa e nem um grande negócio. 

Mas, se pudesse voltar à idade que eu tinha cabelo sobre a cabeça, com os ideais que tenho dentro dela hoje, eu escolheria um negócio que seria a melhor ideia, no mundo.

domingo, 8 de julho de 2012

A COZINHA DE SININHO


Metamorfose
Há uma cozinha entre os banheiros e a sala do meu local de trabalho. Hoje ela parece uma borboleta que saiu do casulo. Meses atrás, seria necessário um anúncio com a palavra “cozinha” afixado nas portas a fim de avisar em que ambiente estava quem passasse por ela. Atualmente as placas seriam  supérfluas. Aliás, até os mais distraídos conseguem sentir que estão num ambiente que convida para um cafezinho em volta de uma mesa ou encostando-se ao granito de uma pia.

A mudança da “cozinha abóbora” para uma “cozinha carruagem” começou quando uma nova faxineira passou a cuidar daquele lugar. Pouco depois que ela chegou ocorreu a seguinte cena:

terça-feira, 22 de maio de 2012

MOTIVAÇÃO

MOTIVAÇÃO


A cidade estava acordando. Vi uma mãe com seu filho no colo. Ela aguardava o ônibus que levaria seu bebê para a creche. Observando a trivial cena logo adiante de mim, segui em frente pedalando minha bicicleta e aproximando-me deles. Ao mesmo tempo, meus pensamentos procuravam motivação para mais um dia de rotina que começava. Não imaginava que esta busca estava tão perto de terminar.


Com os termômetros marcando poucos graus, e o brilho das luzes ainda opacas pela neblina, senti pena daquela criança tirada das cobertas naquela hora. Entre a maioria dos mortais, as primeiras horas de uma fria manhã é o melhor momento para encolher-se na cama e esticar o sono mais um tanto. O pequerrucho já enfrentava seus primeiros sacrifícios dos muitos que terá pela frente a fim de poupar grandes sofrimentos.


Passando mais perto daqueles dois que se apertavam, num olhar de viés notei a mãe inclinando-se com o rosto bem perto do filho. Entre sorrisos e cochichos ela começa a cobrir com beijos a face do pequeno, apertando-o mais ainda contra seu corpo. À medida que a distância entre nós aumentava, despedia-se dos meus ouvidos o som dos carinhos e brincadeiras entre eles. Continuei a pedalar sentindo-me respingado pelas águas de uma cascata de afetos despejando sobre o cálice daquela criança.


O amor manifestado de forma tão pura, em quaisquer condições, motiva e dá ordem de despejo ao medo e desalento. O pesar pela mãe e filho que velava meus sentimentos naquela manhã vestiu-se de luz e ânimo. A grata surpresa ao testemunhar aquela ilha de calor e meiguice cercada pela fria neblina aqueceu minhas emoções. Tomara que eles também tenham tido um gracioso início de dia como o que sutilmente me deram.






segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ACENDER OU APAGAR?

Glamour, encantamento e brilho
Glamour, encantamento e brilho. Estes substantivos intangíveis transpiram por todos os espaços e momentos em viagens de transatlânticos como o Costa Concórdia, que afundou na costa oeste da Itália. Ares de dignidade entre tripulantes e tripulação tecem sobre o mar um clima bem diferente do que se vive  em terra. Aos que viajavam no Costa Concórdia, subitamente o romance se desfez: um solavanco abalou "tudo e todos" pelo encontro de uma rocha com o casco do navio. Como uma carruagem que virou abóbora, findou-se a viagem e o sonho dos milhares naquele castelo sobre as águas.

 Francesco Schettino
Hoje, a curiosidade levou-me a procurar uma imagem do capitão do navio. Encontrei na internet centenas de fotos de Francesco Schettino. Fotos de antes e depois do acidente.  As tiradas após o acidente são muitas, mostrando-o com cara de "Cinderela sem os sapatinhos de cristal". Mas encontrei apenas uma imagem dele antes da fatídica noite; nela, sua pose e aparência são como as de um galã do tipo 007: transmitem confiança e magnetismo.

Agora, todos sabem que, se ele gritou “mulheres e crianças primeiro”, foi do lado de fora do navio, e no primeiro lugar seguro que encontrou naquela noite escura. Estranhamente, pensando na madrugada negra daquelas pessoas, lembrei-me das muitas noites sem luz que povoaram meus dias de criança. Para mim, e para meus irmãos e amigos da rua, as noites quentes e escuras eram cenário perfeito para caçarmos vagalumes: com uma peneira nas mãos, de pernas finas e joelhos grossos, corríamos atrás das pequenas luzes de cor verde que voavam sobre nossas cabeças. A caçada acabava quando conseguíamos jogar a peneira sobre os pontinhos luminosos, interrompendo aquele vôo reluzente.

Com o cuidado e a precisão de um caçador, guardávamos em caixas de fósforos aqueles pirilampos. Era um mistério para nós, mas o simples inseto, quando ameaçado, acendia uma luz esverdeada, tornando aquelas caixinhas como um troféu nas nossas mãos. Após tanto tempo, a imagem daquela luz e a lembrança das caixinhas estão guardadas nos meus pensamentos feito jóias em estojos de veludo. Entretanto, a figura estelar do capitão se desfará breve, pois no escuro e diante do medo, até que provem o contrário, o brilhante Francesco apagou-se, transformando-se em um tosco ser. Com atitude oposta à do capitão, no escuro e diante do medo, o rude vagalume brilhava uma luz que encantava nossos olhos, provocando a sensação de sonhar acordado. Isto sim, quero guardar e imitar.
Acender ou apagar?

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

SHOW DA TARDE

Ontem à tarde, no quintal de casa, assisti um show incrível de um artista invisível.
Não resisti e fiz algumas fotos pensando em compartilhar com você.
Anexei algumas delas, mas desculpe-me, pois não foi possível fotografar temperatura, vento e movimento.


Red and Blue


Sintonia de luzes

Captação do ocaso

Tudo azul
Mais que pote de ouro

Até a chaminé parou para ver

Chumbo e ouro no céu

Cortina celeste

Nuvens em chama


DESEJO E ANSIEDADE


Nos dias que cercavam a travessia de 2011 para 2012, os traquinas Desejo e Ansiedade disputavam lugares e prioridades em minha mente fazendo a maior balburdia. Do jeito que a coisa estava deduzi que uma gastrite chegaria em mim antes de 2012. 

Para dar fim na bagunça fiz o seguinte: Sentei cada deles entre meus neurônios, louvei a Deus, e em seguida li para eles uma parte do sermão do monte em Mateus 6:33 que diz: "Mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.".

Após isso, a paz de um bebê dormindo, como um lençol cobriu meus pensamentos, e os impertinentes habitantes da mente disseram amem.

Feliz 2012 com muita paz!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

2012 COM UM OLHO NO PEIXE E OUTRO NO GATO!

Em todo reveillon sinto vontade de saber o que vai acontecer no final do ano seguinte. Porém, esse ano, essa vontade aumenta ainda mais! Mesmo que fosse só um pouquinho, eu gostaria de ver o próximo ano como muitos costumam ler uma revista ou jornal: do fim para o começo. O motivo: uma ousada data marcada para o Apocalipse (ainda que muitos duvidem).

Dizem por todo lugar (e desta vez até o cinema deu força com o filme “2012”), que o mundo vai acabar em 21 de dezembro de 2012. Tudo tem a ver com o solene calendário do povo Maia, que finaliza os tempos nesta data. Pode ser que o mestre que elaborava o calendário teve um “piripaque” e não terminou seu trabalho, deixando-o parado na trágica data de 21 de dezembro de 2012. Porém, pode ser que ele deu um chute certeiro.


O conselho do Chapolin “não criem cânico” seria apropriado nestes dias. Entretanto, ao colocar os pés no chão no próximo dia 1 de janeiro será difícil evitar a sensação de estar entrando no Titanic sabendo o final da história. Aliás, em 2012 completam-se 100 anos do acidente com o luxuoso navio e seus 1528 passageiros. No filme mais recente sobre a trágica viagem, a trilha sonora com Celine Dion mesclou-se com o som de violinos tocando o hino cristão “Mais perto quero estar, meu Deus de ti” quando todos souberam do inevitável naufrágio. Somente com esta canção no pensamento e no coração será possível atender ao Chapolin.

O seguro morreu de velho, diz o ditado popular. E, de acordo com essa máxima, acho melhor tomar umas providências mais radicais que vestir roupa branca ou pular sete ondinhas no mar nesse reveillon. Se a previsão é para ganhar ibope, descobriremos no dia seguinte da fatídica data. Se não, prudente é seguir o conselho de Jesus aos seus ansiosos discípulos que o pressionaram sobre o fim do mundo. O mestre respondeu: “Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor”. Sendo assim, bom é entrar em 2012 com um olho no peixe, e outro no gato!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

POLEGAR

Sempre considerei o dedo polegar o mais folgado de todos os dedos da mão. Esta impressão começou nas aulas de datilografia. Naquele tempo, datilografar bem era apólice de seguro contra desemprego. Em qualquer entrevista para emprego, de gari a presidente da república, o candidato podia esperar a pergunta: Você tem datilografia? Se a resposta fosse sim, havia chances, se não, só pela misericórdia de Deus.

O feito de datilografar bem exige o uso dos dez dedos das mãos para tocar as quase cinquenta teclas, sem contar as combinações para maiúsculo, minúsculo e caracteres especiais. Esta tarefa era um desafio para os dedos gravarem a posição (em média) de quatro teclas, exceto os ociosos polegares. Enquanto até o dedinho fazia serviço de dedo grande, os polegares repousavam em berço esplêndido sobre a barra de espaço, ocupando-se apenas de trazer à vida os espaços entre as palavras.

Ao repousar os polegares sobre a barra de espaço e os demais dedos sobre as clássicas teclas a-s-d-f-j-k-l-ç, penso que eles ganhavam uma inteligência superior. Veio-me esta sensação há pouco tempo, quando, sem as mãos no teclado, procurei a tecla b. Quase o pânico tomou conta de mim durante os infinitos segundos da procura. Lembrando-me do sábio conselho “muita calma nessa hora”, deitei os dedos na sequência que eles bem conheciam. Pronto! A memória do indicador esquerdo não falhou: parado sobre a letra f, logo achou a letra b, velha amiga tocada tantas vezes pelo fiel amigo.

Entretanto, atualmente noto algo estranho em relação ao uso do polegar. Vejo crianças, jovens, e alguns colegas usando o tal dedo como nunca usei para escrever desde os tempos da brilhantina. Curiosamente, os celulares, iphones, ipods e outros "ais" da modernidade, ainda dependem do formato de teclado com cheiro de naftalina para manter a temperatura da febre de trocar mensagens.

Hoje, as teclas continuam as mesmas, mas o tamanho do teclado encolheu. O conjunto de teclas cabe numa mão, mas as mãos não cabem mais no teclado. Com isso, somente um polegar reina sobre as teclas e suas combinações para povoar de mensagens terra, céus e mares. Será que ele estava preparado para este reinado? Parece que a era da comunicação hi-tech caiu nas mãos de um polegar.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A MULA E O SEMÁFORO

Tudo começou com a mudança do sítio para a cidade de Onésimo e sua mula Ambição. A saída do campo para a vida urbana é fácil de entender, mas uma mula com nome Ambição carece de explicação: Onésimo, proprietário do quadrúpede, na infância impressionou-se com a história do ambicioso profeta Balaão, que desprezou o conselho de Deus. O profeta só se deu conta de sua asneira quando, por uma ação divina, sua mula exortou-lhe com voz humana. Onésimo, assim que ganhou de seu pai o pequeno animal, não teve dúvida na escolha do nome: batizou-a de Ambição, a fim de lembrar-se de que ambição e burrice refletem-se num espelho.

No caminho para cidade, Ambição trotava sem pressa de deixar a vida do campo. Entretanto, o ritmo da cidade era como o de um remanso. Porém, um certo dia, a rotina da cidadela mudou - um dos cruzamentos centrais ganhou a atenção dos moradores. Ambição observava os olhares humanos ao alto e dedos apontando para grandes luzes multicores, que, feito faróis ficavam suspensas no ar por um esbelto poste: Um semáforo era a mais nova aquisição e sensação do município.

Entre os curiosos, Ambição ouviu uma voz mais empolgada: “Olhem, é igual ao da cidade grande!”. Ela nem se deu conta do que ouvia, mas estava sendo testemunha de uma profecia. Envolvida pela novidade e frenesi dos humanos, a admiração de Ambição pelo semáforo tornou-se um caso de paixão não correspondida. Semáforo, em sua glória, passava os dias dado ao orgulho e irreverência controlando o ritmo dos veículos e pedestres. Onésimo, ignorando tal paixão, estranhava a teimosia de Ambição em passar naquele cruzamento, apesar de ser alvo do desprezo de Semáforo.

Sem pedir licença, o progresso entrou na vida daquela comunidade, cumprindo a profecia de tornar-se cidade grande. Onésimo e Ambição retornaram à vida campestre. Os carros modernizaram-se e multiplicaram-se, porém a admiração e respeito ao semáforo minguaram. Semáforo sentia-se desprezado pelos motoristas que aproveitavam sua distinta luz vermelha para arrumar cabelos, retocar maquiagem, falar ao celular ou  paquerar. Seu rico amarelo cansou de pedir atenção. O verde, por mais justo que julgasse ser, chateava-se ao ver caras e bocas insatisfeitas com seu tempo.

Semáforo, apesar da vida agitada sob seus olhos multicores, acumulava um sentimento de culpa ao ver seu vermelho atrair assaltantes e pedintes, além de serviços não solicitados que mais constrangiam do que serviam aos motoristas. Num dia de muito sol, Semáforo teve um breve delírio, e viu entre os carros um par de olhos de mula fitando-o ao alto. Lembrou-se do olhar apaixonado de Ambição, e do tempo e valor recebido da humilde admiradora. Enquanto a visão se apagava, acendia em Semáforo uma certeza: a de que ele não passava de um burro.

sábado, 24 de setembro de 2011

O VENTO

O dia de soltar pipa chegou. Os cartazes pela cidade chamavam desde as crianças até os avós. Tornou-se um domingo esperado para muitos, como o dia de pescaria ou de viagem de férias. E foi o dia do vendedor de pipas tambem (bem que ele queria ser um polvo naquela manhã, pois faltaram-lhe braços para entregar as pipas e recolher das pequenas mãos o dinheiro em notas enroladas...).
 
Ali, no meio de tantas pessoas que estavam esticando em mais uma geração esta tradição de brincar com o vento, entendi que quem faz a pipa é o próprio vento. As partes da pipa se compram e se constroem, mas o vento não se faz, não se compra, não se deixa dominar. Só há pipa no céu quando ele quer. E pipa no chão é choro sem lágrima. Mas, para alegria de todos, lá estava ele, invisível e intocável, sem traços que o contornem ou pincéis e tinta que lhe deêm cores. Delgadas e coloridas, as pipas no céu anunciavam a sua presença naquele dia.

Quem não sabe que o vento é livre, quase um soberano? Não há presídios que detenham-no. Até Jesus, o único que dominou-o, afirmou que ele sopra onde quer, e mesmo ao ouvir a sua voz, não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Os “neurônios divinos” só acharam um paralelo para a nova vida que o cristão legítimo recebe  na liberdade do vento.

As vezes penso que o vento tem temperamento, ou melhor, todos os temperamentos e humores. Quem não se emociona com uma brisa terna da tarde de Outono que encarna lembranças de momentos queridos? Travesso e extrovertido é o vento de Agosto que levanta as saias e desmancha penteados. Súbito e intempestivo, o vemos chegar no Verão revirando guarda-chuvas e fazendo telhados voarem.

Tão cheio de vontades e humores ele é, que torna vão todo esforço em entendê-lo. Misterioso, temperamental, ora sopra, ora não sopra, sopra de lá para cá e de cá para lá, como quer. Por isso, nem sempre ele é bem entendido: Quando geme, alguns dizem que canta, e quando ele canta há quem diga que ouve gemidos. Tão misterioso é, que o nome do instrumento que se presta a entender sua direção foi batizado de Biruta. Apesar de tudo isso, não é difícil concordar com o escritor Fernando Pessoa que diz: "Só para ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido".