quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

SESTA. NEM SEXTA, NEM CESTA.

Nada contra ela. Pelo contrário, tudo a favor. Até combate doenças cardíacas dizem os estudiosos. Mas porque me sinto tão inadequado quando vejo trabalhadores cochilando no intervalo do almoço? Ou melhor, fazendo a sesta – nem sexta, nem cesta.

Geralmente agrupados e conectados numa rede do sono, estiram-se onde há sombra e protagonizam quase uma cena surreal. Dormem alheios a todo movimento em torno deles. Parece algo sagrado, onde os que estão acordados são os profanos, e os que dormem purificam-se.

Botina transforma-se em travesseiro, meias nos olhos, no maior estilo, servem para quebrar a luz. A sombra das arvores prestam-se de coberta de uma leveza que nem rainhas desfrutam. O comprimento e a largura do chão são as medidas da cama, deixando qualquer cama box king size com complexo de inferioridade.

Confesso que às vezes experimento uma ponta de inveja por não me sentir tão à vontade de dormir dessa forma tão simples. No fundo meu organismo pede isso, mas meu preconceito rejeita. Assim, depois de almoçar acabo encontrando mil coisas pra me ocupar neste intervalo.

Alguém já disse “porque simplificar se a gente pode complicar?”. Acho que no dia a dia faço eco a essa frase com minhas atitudes. Parece que tornar complexa a vida está em nós como o coração está no peito. Não é a toa que existe hoje nas grandes cidades negócios que oferecem casulos recheados de tecnologia e conforto por um doce sono e um salgado preço para breves cochilos durante o dia.

É certo que o sono ainda é cercado de mistérios, mas dormir é simples e essencial para a vida como a roda é para a humanidade. Não sei se um dia serei encontrado cochilando num canto qualquer. Entretanto, a partir deste ano quero ser mais simples, tendo em mente que a simplicidade como a de uma criança leva-nos à porta de entrada do reino dos céus, quando dormiremos o sono sem fim.


A sesta - Van Gogh (1890)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Confraternização dos talentos

Em dezembro a rotina de quase todos setores das empresas se transforma pelas confraternizações. A descontração, bebida e boa comida na mesa brindam a convivência no ano passou - e que ano! Entretanto, o que mais me atrai nessas confraternizações é estar com os que se servem da mesa; ou seja, os colegas de equipe com suas virtudes, realizações e amizade.

Durante o ano proporcionaram-me a sensação de trabalhar dentro de uma galeria de talentos e habilidades. Tornaram meu dia a dia de trabalho mesclado com contemplação e admiração. A oportunidade de sentar em torno de uma mesa com alguns ou com todos é um privilégio. É como entrar no camarim do artista favorito e ser chamado pelo nome.

Cada um deles vivenciou dramas secretos, e entretanto criaram, desenvolveram, executaram tarefas e encontraram soluções de problemas de vários calibres e dificuldades. Ao longo do ano com meus olhos apreciei, com a mente digeri e a com emoção sorvi a criatividade, a disciplina, a atenção e o cuidado que cada um derramou durante dias, semanas e meses. Um dissecou questões como um hábil cirurgião, outro enfrentou demandas complexas como um apaixonado que não foge dos desafios. Cada um dos demais com seu talento, como um instrumento, emprestaram seu som a uma harmoniosa orquestra.


Observo em cada um dos colegas aspectos da sabedoria e graça de Deus (doador da vida e dos talentos) formando uma equipe, como as cores juntas formam um arco-íris adornando os céus. Contemplar tudo isso acende o desejo de confraternização e faz o convite ganhar filetes de ouro. Porque não se confraternizar? sempre que posso vou, e para isso vou vestido com minhas melhores roupas de gratidão.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

VAI-VEM

Apesar da velocidade e facilidade que os emails oferecem para se comunicar, gosto de enviar e receber correspondência por envelopes. Eles despertam em mim algo especial, a começar pelo som ao soltar suas abas, e quando é segredo seu conteúdo, abrí-los é quase um ritual. Entretanto, como os telefones públicos e outras utilidades, eles também estão entrando em desuso, acrescentando uma sensação de saudade ao vê-los vagando de lá pra cá.

No grupo Jacto vejo ainda circulando os úteis VAI-VEM, feitos de papel resistente para durarem 120 viagens. Há poucos dias vi um destes “heróis da resistência” chegar às mãos de uma colega do setor. Preso em seus dedos estava o VAI-VEM, no seu rosto ares de admiração mesclado com ternura, na sua boca uma sugestão: “Heron, escreve sobre isso”. A inspiração despertou como de um sono.

Aquele envelope, com quase todos de-para preenchidos já tinha feito pelo menos 112 viagens, faltando apenas 8 para se aposentar. A quantidade que carregava de rugas e marcas não era muito menor que as perfurações dos grampeadores. Enquanto eu olhava o estado geral do VAI-VEM, minha colega ia mostrando nele o nome de pessoas que já passaram pela empresa há uns 5 anos. Seu dedo não apontava apenas um nome de remetente ou destinatário, mas um quadro que foi pintado ou uma janela construída nem tão longe e nem tão perto no tempo.

De cá-pra-lá e de lá-pra-cá, cada VAI-VEM, como numa mostra itinerante do tempo continuará suas viagens de porto em porto declarando as trocas entre as pessoas. Com certeza eles não dirão se perguntarem, mas escondem em suas dobras e rugas os sentimentos e palavras dos que os enviaram e receberam.

Gostaria de algum dia erguer um cálice a um desses VAI-VEM utilizados até o fim. Muito mais, almejo ser como um deles, com todo potencial consumido em sua jornada. Seria um privilégio desfrutar vazio como eles o entardecer dos meus dias, sem mais o que dar, tendo na mente a mesma frase de Paulo, veterano e inspirado escritor da fé cristã: “combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”.



domingo, 18 de outubro de 2009

Mentes e atitudes incomuns

Oskar Schindler: Eu poderia ter conseguido mais. Eu poderia ter conseguido mais. Eu não sei. Se eu ao menos... Eu poderia ter conseguido mais.
Itzhak Stern: Oskar, há mais de mil e cem pessoas aqui que estão vivas por causa de você. Olhe pra elas.
Oskar Schindler: Se eu tivesse feito mais dinheiro... Eu gastei tanto dinheiro. Você não tem ideia. Se eu ao menos...
Itzhak Stern: Haverá gerações graças ao que você fez.
Oskar Schindler: Eu não fiz o bastante!
Itzhak Stern: Você fez muito. [Schindler olha para o seu carro]
Oskar Schindler: Este carro. Goeth teria comprado este carro. Por quê eu fiquei com ele? Dez pessoas logo ali. Dez pessoas. Dez pessoas a mais. [remove seu distintivo nazista de ouro da lapela]
Oskar Schindler: Este distintivo. Duas pessoas. Duas pessoas a mais. Ele teria me dado duas por isso, no mínimo. Uma pessoa. Uma pessoa, Stern. Por isto.
Oskar Schindler: Eu poderia ter conseguido mais uma pessoa... e eu não fiz isso! E eu... não fiz isso! “

Este diálogo está nas cenas finais do filme “A lista de Schindler” onde o diretor Steven Spielberg conta a história de um empresário alemão que usou seu dinheiro e conexões para libertar 1100 judeus dos campos de concentração nazista, em plena 2ª Guerra Mundial. Apesar da cena estar na tela, quase se pode pegar com as mãos a frustração e insatisfação de Schindler por não ter feito mais do que fez. O impulso desse desprendimento e dedicação é a marca de um apaixonado, como Schindler foi pela alma humana.

Quase sempre minha mente é assaltada por estas cenas quando vejo alguém dedicado em fazer mais. E isso aconteceu na abertura do mais recente evento do Dia da Melhoria, quando a Flávia disse que os funcionários que aceitaram o desafio de fazer mais apresentariam suas ideias de melhoria. Minha expectativa subiu como leite na fervura em relação ao que viria pela frente.

Eu tinha que decidir se experimentaria com ou sem emoção os próximos 90 minutos. Fechei os olhos e decidi – será com emoção. Afinal, não é por metro ou por quilo que se encontram ideias que efetivamente mudam as maneiras de se trabalhar para torná-las mais eficiente e satisfatória. Geralmente elas nascem na mente de pessoas tidas como insatisfeitas, que não se conformam com uma rotina de resultados medianos. Frequentemente fazem mais do que pedem para ser feito, pois possuem a marca das pessoas que vivem e trabalham com paixão.

Quem fechasse os olhos naquele auditório, nitidamente teria a impressão que os funcionários apresentando suas ideias sentiam-se donos ou filhos dos donos da Unipac. Expuseram suas soluções como se fossem os únicos responsáveis pelas perdas de óleo, de tempo e de materiais, e finalizavam com satisfação. Alguns até demonstravam surpresa com o resultado alcançado.

Muitos podem estranhar atitudes assim, pois não é padrão deste mundo ser alguém que anda duas milhas quando lhe pedem uma. O comum é conformar-se com olho por olho e dente por dente, satisfazendo-se apenas com o holerite por recompensa. No entanto, atitudes incomuns abrem a porta para recompensas incomuns, que começam com a gratuita alegria de tornar a vida de outros melhor de ser vivida.

Equipe do Dia da Melhoria em 31 de julho de 2009

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A RUA

Foi a rua. Foi uma rua que em meus primeiros momentos entre os muros da Jacto mais me impressionou. Poderia ser a organização, limpeza ou outros atributos patentes de uma empresa com cultura ordeira e trabalhadora - mas não foi. Foi a rua que do começo ao fim fende e se põe entre os prédios da Jacto como uma aorta no corpo humano. Do lado de fora, quem passa pela rodovia com os olhos fitando seus muros e telhados mais altos, até com mente rígida facilmente imagina galpões com máquinas e operários circulando e interagindo-se. Mas como um cego de idéias, não pensa que há uma rua lisa e esguia como uma graciosa avenida.

Será que ela já existia antes da Jacto e aos poucos foi sendo tomada pelos braços da próspera empresa, ou rasgaram-na de fio a pavio por entre os galpões e construções à medida que se erguiam? Quem chegou primeiro pode responder, pois como nós um dia ela teve um início. Mais modesta com certeza, talvez com pedras ou grosso revestimento rude aos pés, mas generosa para seu fim de ser um leito para ir e vir com matéria prima, produtos e gente trabalhadora - muita gente, que está aqui hoje e que já esteve e não está mais.

Quando dispara o som da sirene, essa gente – e faço parte dela - transforma este canal que liga os escritórios, depósitos e oficinas como num rio em época de cheias que quer transbordar. Esvaziam seus postos e lotam os poucos metros de largura pelos 400 de comprimento, apresentando um apressado desfile que mais parece uma marcha. Como um tiro rápido e reto seguem para a refeição e descanso, escola, família ou outros fins não contados, até que ao próximo grito da sirene voltam como que escoando pelo canal e vazando novamente para de onde saíram, continuando a construir a própria história e da rua, da empresa, da cidade e de nossa geração.

Esse ritmo e rotina dão um clima, cheiro e alma para essa rua que nos torna iguais, como irmãos na mesma casa, como obras das mãos de um só Criador. Nela caminham os que batem e os que não batem cartão, os que chegam e saem a pé, de bicicletas ou motorizados, e não é incomum ver nela se cruzarem operário, gerente ou presidente.

Ela não conhece o som e o alarido de crianças brincando ou correndo e jogando peladas, nem a boa conversa dos vizinhos ao fim do dia e nem o triste cortejo de um funeral, mas conhece o sonho e o esforço de jovens e pais de família, as idéias e as soluções da engenharia. E assim, com energia e generosidade ela vai permitindo escoar de si trabalho, riqueza e sustento, como um porto que despede os teus para os mares e continentes ao encontro de outros portos e gentes.

Aprendi amar essa rua e sua nobre alma, desconhecida para muitos e sem nome nos mapas, mas particularmente estimada pelos sentimentos e essência que destila pelos poucos metros que nela ando.