terça-feira, 18 de maio de 2010

GRAÇAS A DEUS, É SEXTA-FEIRA!

Quem procura por pessoas entusiasmadas, provavelmente não as encontrará numa longa fila. Certo? Errado. Errado se a fila for numa sexta-feira, formada após o som da sirene de fim de expediente na empresa que trabalho. Como num toque mágico, o estridente gemido traz à existência uma multidão de pessoas enfileiradas movendo-se em direção às catracas da portaria.

Os trabalhadores surgem de seus departamentos alinhando-se um após outro, formando filas extensas. Ao chegar perto delas, a sensação que tenho é que estas filas transbordam ansiedade e motivação. Penso que, das duas uma: do outro lado da portaria tem “fla-flu”, ou picanha grátis. Das duas, nenhuma. É que a sexta-feira, em quase todo mundo é assim mesmo, amada e esperada como chuva no sertão.

O entardecer da véspera traz consigo aroma e clima de reveillon. Mas o despertar da sexta-feira tem um bom humor quase globalizado. Esta sensação já foi consagrada no cinema, na música e nos negócios gastronômicos com a sigla TGIF (Thank God, It´s Friday), que é mais ou menos “Graças a Deus, é sexta-feira!”.

Neste dia observo carros, roupas, sapatos, maquiagens e sorrisos que estiveram guardados na semana. Saíram dos armários para vestirem por fora os que querem ser diferente por dentro, ou simplesmente quebrar a rotina nas próximas 48 horas. Entretanto, mesmo que nada mude, parece que o peso da rotina e das contrariedades é aliviado pelas cordas da esperança.

Sinto que a alma da nossa raça é assim mesmo. É dada a amar, viver e encharcar-se da esperança renovada diante de qualquer sinal de mudança. Cada ciclo que Deus fez para marcar os tempos, tem esta química de dispor novas oportunidades. Saturar os espaços da mente com o que traz esperança não é utopia ou ópio. Essa atitude é um recurso de quem quer construir a felicidade ao invés de viver buscando-a. São coisas do criador para sua amada criatura. Então, graças a Deus pela sexta-feira!


domingo, 25 de abril de 2010

INQUIETANTE PERGUNTA - Adeus 'seu' Nishimura

Na última sexta-feira duas palavras entraram por um dos meus ouvidos e não quiseram sair pelo outro. Elas se embrenharam com minhas idéias durante o almoço de comemoração pelo dia do trabalho aos funcionários da Jacto. As palavras nos chamavam de “honrados funcionários”, e formavam as ultimas frases de agradecimento aos que trabalham na empresa. Imediatamente a pergunta “porque honrados funcionários?” começou gravitar meus pensamentos. Mas diante dos clamores de fome do estomago, minha mente foi induzida a pensar mais no almoço do que naquelas palavras.

Entretanto a questão foi respondida na noite daquele dia. Vestindo uma camiseta com a nova logomarca da empresa estive com minha família num grande evento regional. Um deputado que andava entre os populares ao ver-me com aquela marca, estendeu a mão para cumprimentar-me, e disse ao pé do meu ouvido: “Você sabia que o seu Nishimura faleceu hoje à tarde?”.

Não sei se foi pela cara que fiz, mas o político afastou-se do mesmo modo fugaz que veio. Triste, mas surpreso lembrei-me daquelas palavras ouvidas no meio do dia. Naquela hora, senti-me um funcionário honrado ao receber a notícia da morte do fundador da empresa que trabalho através de um deputado em meio a tantas pessoas. A honra daquele patrono desceu até os funcionários mais distantes, assim como a glória de Cristo descerá sobre todos que nEle confiam.

No sábado o sol puxou uma cortina de nuvens e escondeu-se atrás delas. O dia nasceu solene, como que guardando um luto solidário aos pompeienses. No velório num ginásio, encontrei um lugar ao fundo. Ali em pé, via uma pequena multidão sentada à minha frente. Um dos filhos do seu Nishimura, representando a família, confidenciou aos presentes que seu pai não desejava que no seu velório chorassem por ele, mas que o aplaudissem.

Em seguida algo marcante aconteceu. De onde eu estava vi formar-se uma verdadeira “ola” como num estádio. Iniciada pelas pessoas nos primeiros lugares, e sucessivamente imitadas pelas de trás, num gesto contínuo como uma onda, todos se levantaram dos acentos e aplaudiram ruidosamente até chegar aos últimos. A sensação foi intensa como de um coquetel de alegria, dor e gratidão. E cresceu ainda mais quando olhei ao lado e vi, com as mãos batendo uma contra a outra, o tal deputado que na noite anterior foi um simples mensageiro para responder a inquietante pergunta “porque honrados funcionários?”.

Heron Caetano
As fotos foram obtidas do site www.estounanet.com.br




quinta-feira, 15 de abril de 2010

PEDALANDO

Acho que os dias que já vivi são mais do que os que faltam pra viver. A sensação é quase a mesma quando olho para o marcador de combustível e vejo que gastei mais da metade do tanque. Então, nada de dar voltinhas que levam a lugar nenhum. Com um olho no marcador e outro na estrada quero prestar mais atenção à vida comum e nas pessoas.

Como fazer isso bem feito ainda estou descobrindo. Comecei pela rotina do trajeto de casa para o trabalho, e vice-versa. Resolvi fazer o percurso de bicicleta. Porque? Bem, as razões óbvias são: é econômico, saudável, ecológico, e por ai vai. Entretanto, outros motivos pesaram mais que o óbvio. Uma: o acento atrás de um volante não é o que mais aprecio. Outra: A percepção de mim mesmo, passando pelas pessoas e elas passando por mim é doce. Sem vidros escuros vejo-as como sou visto.

Pedalando por um quarto de hora, sou acompanhado pelas inseparáveis linhas de trem que fendem nossa cidade. De manhã e ao entardecer, banhadas pelos raios do sol elas ganham cor de ouro, e à noite viram prata pela luz da lua. A brisa, nem sempre favorável, quando sopra traz com ela frescor e odores que dão tempero às pedaladas. Bicicleta, caminho, ciclista e brisa criam uma amizade. Conhecendo-se, ralhando as vezes um com outro, vão combinando-se e formando quase uma simbiose.

No estacionamento das bicicletas da empresa elas convivem pacificamente. Com paciência, sob sol ou chuva aguardam seus donos. Umas modernas e outras mais antigas, coloridas ou desbotadas, todas servem quem as usam como um jeans ou sapato velho que a gente não quer se desfazer.

Na ciclovia pedala-se com a sensação de estar num calçadão. Alem de outros ciclistas, divide-se o espaço com estudantes, trabalhadores, esportistas de plantão e até cães já acostumados com as rodas que passam. Mas dá pra conviver bem nesse microcosmo. O que não dá pra conviver bem é com a falta que a bicicleta está me fazendo desde que um desconhecido a levou da garagem de casa sem pedir, e ainda não devolveu.


sábado, 20 de março de 2010

SIRENE

Ele era um moço criado num cortiço de frente a uma das fábricas no Rio de Janeiro na época que se escrevia farmácia com "ph". Apesar de tudo cresceu  nobre nas afeições. Da janela de seu casebre apaixonou-se por uma jovem operária que diariamente entrava e saia da fábrica ao som de uma sirene. A pele dela era da cor da Lua, e a dele da cor da noite. Embora Lua e noite vivam juntas no céu, para ele, na terra e na sociedade daqueles anos, fazer par com ela era um sonho impossível. Seu breve e real prazer estava em ouvir o som da sirene da fábrica. Ao sinal para sair, sua amada aparecia mais deslumbrante que ao toque que a chamou para entrar. Chegou o dia que a fábrica fechou. A sirene calou-se e aquela que incendiava seu coração ele não viu mais. Para não esquecê-la e manter vivo o fogo da paixão, não teve sossego enquanto não se tornou um motorista de ambulância. Assim viveu seus dias embalados pelo canto de uma sirene. 

Para mim e para muitos que trabalham entre os muros de uma fábrica como a jovem da estória, ainda é o som da sirene que nos chama pra dentro ou convida-nos a sair. Na sua rotina, ela nos avisa a hora da refeição, do descanso, de ir pra casa e voltar ao trabalho. Enfim, diariamente ao seu som reorganizo a vida, até que um dia, ao som de uma sirene celestial, vez por todas tudo será reordenado em transbordante justiça e paz.

Muitos ao ouvir a sirene da fábrica, talvez não se sintam tão provocados como o rapaz do nosso conto. Entretanto, pra mim, ela é muito distinta e marcante. Não tem como ignorar. Escondida aos meus olhos, mas escancarada aos ouvidos, as vezes ela chora melancólica. Por vezes soa como espada - comprida e chata. No fundo, acho que ela não muda sua canção. Sinto que é o que está dentro de mim que me faz ouvi-la em escalas e timbres mutantes como vento. Percebo isso quanto estou motivado ou ansioso, pois ao seu som faço uma prece: “Bendito aquele que te despertou”... e Fred Flintstone na pedreira canta: “Yabba-dabba-duuuu”!



quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

APLAUSOS

Ele veio pra mudar - e muito - a vida das empresas. Seu apelido é SPED, sigla de Sistema Público de Escrituração Digital. É a mais recente obrigação fiscal dos empresários, e quer saber tim-tim por tim-tim de tudo que entra e sai da empresa que envolva impostos. Tudo mesmo, nos mííííííinimos detalhes.

Para atendermos estas exigências no prazo de um verão, o gerente do projeto organizou uma equipe com parceiro externo, funcionários de TI e das áreas fiscais das empresas. A tarefa de montagem do cronograma foi cheia de estica e puxa como quem dorme com coberta de anão.

Imagine como se sente um lutador de sumô tendo que entrar numa calça de jóquei. Foi mais ou menos o que sentimos quando percebemos o volume de trabalho e informações pedindo para ser entregue num prazo magérrimo. Tudo isso na época mais festiva do ano, disputando agenda com Natal e reveillon.

Uma sala foi separada para o trabalho da equipe, e painéis quadriculados surgiram na parede principal para controle do trabalho feito e a fazer. Cada quadrinho seria preenchido com um “X” assim que a etapa correspondente fosse executada.

Um misto de dias quentes com o frio na barriga marcou o início da jornada. Entretanto, em pouco tempo a rotina dominou, e a adrenalina da largada dissipou-se. Os esforços começaram a parecer remadas em alto mar, até que um pincel atômico entre cinco dedos preencheu o primeiro quadrinho com o esperado “X”. Então algo inesperado começou a acontecer.

Subitamente, a cada quadrinho preenchido, aplausos vindo de todos da equipe quebravam o reinado do silêncio e da rotina. Como Deus nos surpreende com sol numa manhã fria e chuva numa tarde quente, aqueles aplausos enchiam a sala com fragrância de motivação e alegria, deixando o ar mais leve e bocas com sorriso fácil.

Aplaudir o êxito do colega, uma atitude simples e gratuita, teve a eficácia do mais caro energético ou de um hábil motivador. Uma graça, um mistério, um gesto que valeu mais que mil palavras fez a diferença. E o lutador de sumô ficou muito bem na calça do jóquei!