quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

DESEJO E ANSIEDADE


Nos dias que cercavam a travessia de 2011 para 2012, os traquinas Desejo e Ansiedade disputavam lugares e prioridades em minha mente fazendo a maior balburdia. Do jeito que a coisa estava deduzi que uma gastrite chegaria em mim antes de 2012. 

Para dar fim na bagunça fiz o seguinte: Sentei cada deles entre meus neurônios, louvei a Deus, e em seguida li para eles uma parte do sermão do monte em Mateus 6:33 que diz: "Mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.".

Após isso, a paz de um bebê dormindo, como um lençol cobriu meus pensamentos, e os impertinentes habitantes da mente disseram amem.

Feliz 2012 com muita paz!

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

2012 COM UM OLHO NO PEIXE E OUTRO NO GATO!

Em todo reveillon sinto vontade de saber o que vai acontecer no final do ano seguinte. Porém, esse ano, essa vontade aumenta ainda mais! Mesmo que fosse só um pouquinho, eu gostaria de ver o próximo ano como muitos costumam ler uma revista ou jornal: do fim para o começo. O motivo: uma ousada data marcada para o Apocalipse (ainda que muitos duvidem).

Dizem por todo lugar (e desta vez até o cinema deu força com o filme “2012”), que o mundo vai acabar em 21 de dezembro de 2012. Tudo tem a ver com o solene calendário do povo Maia, que finaliza os tempos nesta data. Pode ser que o mestre que elaborava o calendário teve um “piripaque” e não terminou seu trabalho, deixando-o parado na trágica data de 21 de dezembro de 2012. Porém, pode ser que ele deu um chute certeiro.


O conselho do Chapolin “não criem cânico” seria apropriado nestes dias. Entretanto, ao colocar os pés no chão no próximo dia 1 de janeiro será difícil evitar a sensação de estar entrando no Titanic sabendo o final da história. Aliás, em 2012 completam-se 100 anos do acidente com o luxuoso navio e seus 1528 passageiros. No filme mais recente sobre a trágica viagem, a trilha sonora com Celine Dion mesclou-se com o som de violinos tocando o hino cristão “Mais perto quero estar, meu Deus de ti” quando todos souberam do inevitável naufrágio. Somente com esta canção no pensamento e no coração será possível atender ao Chapolin.

O seguro morreu de velho, diz o ditado popular. E, de acordo com essa máxima, acho melhor tomar umas providências mais radicais que vestir roupa branca ou pular sete ondinhas no mar nesse reveillon. Se a previsão é para ganhar ibope, descobriremos no dia seguinte da fatídica data. Se não, prudente é seguir o conselho de Jesus aos seus ansiosos discípulos que o pressionaram sobre o fim do mundo. O mestre respondeu: “Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor”. Sendo assim, bom é entrar em 2012 com um olho no peixe, e outro no gato!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

POLEGAR

Sempre considerei o dedo polegar o mais folgado de todos os dedos da mão. Esta impressão começou nas aulas de datilografia. Naquele tempo, datilografar bem era apólice de seguro contra desemprego. Em qualquer entrevista para emprego, de gari a presidente da república, o candidato podia esperar a pergunta: Você tem datilografia? Se a resposta fosse sim, havia chances, se não, só pela misericórdia de Deus.

O feito de datilografar bem exige o uso dos dez dedos das mãos para tocar as quase cinquenta teclas, sem contar as combinações para maiúsculo, minúsculo e caracteres especiais. Esta tarefa era um desafio para os dedos gravarem a posição (em média) de quatro teclas, exceto os ociosos polegares. Enquanto até o dedinho fazia serviço de dedo grande, os polegares repousavam em berço esplêndido sobre a barra de espaço, ocupando-se apenas de trazer à vida os espaços entre as palavras.

Ao repousar os polegares sobre a barra de espaço e os demais dedos sobre as clássicas teclas a-s-d-f-j-k-l-ç, penso que eles ganhavam uma inteligência superior. Veio-me esta sensação há pouco tempo, quando, sem as mãos no teclado, procurei a tecla b. Quase o pânico tomou conta de mim durante os infinitos segundos da procura. Lembrando-me do sábio conselho “muita calma nessa hora”, deitei os dedos na sequência que eles bem conheciam. Pronto! A memória do indicador esquerdo não falhou: parado sobre a letra f, logo achou a letra b, velha amiga tocada tantas vezes pelo fiel amigo.

Entretanto, atualmente noto algo estranho em relação ao uso do polegar. Vejo crianças, jovens, e alguns colegas usando o tal dedo como nunca usei para escrever desde os tempos da brilhantina. Curiosamente, os celulares, iphones, ipods e outros "ais" da modernidade, ainda dependem do formato de teclado com cheiro de naftalina para manter a temperatura da febre de trocar mensagens.

Hoje, as teclas continuam as mesmas, mas o tamanho do teclado encolheu. O conjunto de teclas cabe numa mão, mas as mãos não cabem mais no teclado. Com isso, somente um polegar reina sobre as teclas e suas combinações para povoar de mensagens terra, céus e mares. Será que ele estava preparado para este reinado? Parece que a era da comunicação hi-tech caiu nas mãos de um polegar.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A MULA E O SEMÁFORO

Tudo começou com a mudança do sítio para a cidade de Onésimo e sua mula Ambição. A saída do campo para a vida urbana é fácil de entender, mas uma mula com nome Ambição carece de explicação: Onésimo, proprietário do quadrúpede, na infância impressionou-se com a história do ambicioso profeta Balaão, que desprezou o conselho de Deus. O profeta só se deu conta de sua asneira quando, por uma ação divina, sua mula exortou-lhe com voz humana. Onésimo, assim que ganhou de seu pai o pequeno animal, não teve dúvida na escolha do nome: batizou-a de Ambição, a fim de lembrar-se de que ambição e burrice refletem-se num espelho.

No caminho para cidade, Ambição trotava sem pressa de deixar a vida do campo. Entretanto, o ritmo da cidade era como o de um remanso. Porém, um certo dia, a rotina da cidadela mudou - um dos cruzamentos centrais ganhou a atenção dos moradores. Ambição observava os olhares humanos ao alto e dedos apontando para grandes luzes multicores, que, feito faróis ficavam suspensas no ar por um esbelto poste: Um semáforo era a mais nova aquisição e sensação do município.

Entre os curiosos, Ambição ouviu uma voz mais empolgada: “Olhem, é igual ao da cidade grande!”. Ela nem se deu conta do que ouvia, mas estava sendo testemunha de uma profecia. Envolvida pela novidade e frenesi dos humanos, a admiração de Ambição pelo semáforo tornou-se um caso de paixão não correspondida. Semáforo, em sua glória, passava os dias dado ao orgulho e irreverência controlando o ritmo dos veículos e pedestres. Onésimo, ignorando tal paixão, estranhava a teimosia de Ambição em passar naquele cruzamento, apesar de ser alvo do desprezo de Semáforo.

Sem pedir licença, o progresso entrou na vida daquela comunidade, cumprindo a profecia de tornar-se cidade grande. Onésimo e Ambição retornaram à vida campestre. Os carros modernizaram-se e multiplicaram-se, porém a admiração e respeito ao semáforo minguaram. Semáforo sentia-se desprezado pelos motoristas que aproveitavam sua distinta luz vermelha para arrumar cabelos, retocar maquiagem, falar ao celular ou  paquerar. Seu rico amarelo cansou de pedir atenção. O verde, por mais justo que julgasse ser, chateava-se ao ver caras e bocas insatisfeitas com seu tempo.

Semáforo, apesar da vida agitada sob seus olhos multicores, acumulava um sentimento de culpa ao ver seu vermelho atrair assaltantes e pedintes, além de serviços não solicitados que mais constrangiam do que serviam aos motoristas. Num dia de muito sol, Semáforo teve um breve delírio, e viu entre os carros um par de olhos de mula fitando-o ao alto. Lembrou-se do olhar apaixonado de Ambição, e do tempo e valor recebido da humilde admiradora. Enquanto a visão se apagava, acendia em Semáforo uma certeza: a de que ele não passava de um burro.

sábado, 24 de setembro de 2011

O VENTO

O dia de soltar pipa chegou. Os cartazes pela cidade chamavam desde as crianças até os avós. Tornou-se um domingo esperado para muitos, como o dia de pescaria ou de viagem de férias. E foi o dia do vendedor de pipas tambem (bem que ele queria ser um polvo naquela manhã, pois faltaram-lhe braços para entregar as pipas e recolher das pequenas mãos o dinheiro em notas enroladas...).
 
Ali, no meio de tantas pessoas que estavam esticando em mais uma geração esta tradição de brincar com o vento, entendi que quem faz a pipa é o próprio vento. As partes da pipa se compram e se constroem, mas o vento não se faz, não se compra, não se deixa dominar. Só há pipa no céu quando ele quer. E pipa no chão é choro sem lágrima. Mas, para alegria de todos, lá estava ele, invisível e intocável, sem traços que o contornem ou pincéis e tinta que lhe deêm cores. Delgadas e coloridas, as pipas no céu anunciavam a sua presença naquele dia.

Quem não sabe que o vento é livre, quase um soberano? Não há presídios que detenham-no. Até Jesus, o único que dominou-o, afirmou que ele sopra onde quer, e mesmo ao ouvir a sua voz, não se sabe de onde vem, nem para onde vai. Os “neurônios divinos” só acharam um paralelo para a nova vida que o cristão legítimo recebe  na liberdade do vento.

As vezes penso que o vento tem temperamento, ou melhor, todos os temperamentos e humores. Quem não se emociona com uma brisa terna da tarde de Outono que encarna lembranças de momentos queridos? Travesso e extrovertido é o vento de Agosto que levanta as saias e desmancha penteados. Súbito e intempestivo, o vemos chegar no Verão revirando guarda-chuvas e fazendo telhados voarem.

Tão cheio de vontades e humores ele é, que torna vão todo esforço em entendê-lo. Misterioso, temperamental, ora sopra, ora não sopra, sopra de lá para cá e de cá para lá, como quer. Por isso, nem sempre ele é bem entendido: Quando geme, alguns dizem que canta, e quando ele canta há quem diga que ouve gemidos. Tão misterioso é, que o nome do instrumento que se presta a entender sua direção foi batizado de Biruta. Apesar de tudo isso, não é difícil concordar com o escritor Fernando Pessoa que diz: "Só para ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido".