domingo, 5 de julho de 2009

Raízes

Em qualquer ambiente que estou procuro por quadros, sejam eles pinturas ou fotos. Depois passo os olhos pelos adornos e móveis. Sem sons – pelo menos por enquanto – eles geralmente falam de quem frequenta e ornou aquele lugar, e podem contar segredos e anseios da alma que nem sussurrando às paredes seus arrumadores confessariam. Assim, quando posso, debruço meu olhar sobre estas peças e deixo os sentidos apreciarem suas nuances e histórias até então não contadas.

Mas na sala de espera do RH da Jacto, na parede ao lado do bebedouro de água, há um quadro que quando olho pra ele não o observo de fora, entro nele, deixo-me ser capturado. Nada de especial do ponto de vista artístico ou técnico, pois é uma montagem fotográfica já desbotando, como aqueles troféus amarelados na estante que ainda não foram guardados em um armário qualquer.

Trata-se de uma homenagem do ano de 1998, por ocasião dos 50 anos da Jacto, aos funcionários com mais de 30 anos de empresa. Hoje seriam mais de 40 anos! São homens que entraram na Jacto e a Jacto entrou neles - uma simbiose, uma relação de benefício mútuo que se tornou nossas raízes. Isso que o quadro me sugere com a imagem das indústrias e da Fundação no alto, no centro o Sr.Nishimura, e abaixo de tudo, como no subsolo, 17 rostos com olhos que me olham e bocas que me dizem que estou ligado a uma grande e forte arvore sustentada por profundas raízes.

Penso que muitas vezes durante as décadas de trabalho, carentes de recursos e tecnologias, como que raízes de uma planta sofrendo a escassez de água, tiveram que buscar nutrientes e soluções aprofundando-se no solo alem do normal, firmando e projetando assim uma arvore que já foi bem provada e aprovada pelos ventos de não poucas tempestades.

Bate-me um respeito, uma vontade de apertar a mão de cada um, e até pedir um conselho como escreveu o profeta Jeremias: “perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho” - pois alguns deles ainda andam entre nós. Sei que este sentimento, inerente nos valores do Grupo Jacto, não é comum nos meandros do profissionalismo contemporâneo, pois para muitos dos profissionais de hoje, o pai e o avô que trabalharam mais de 30 anos em uma mesma empresa não são exemplos a serem seguidos, mas evitados.

Para mim não é apenas um quadro de um ano jubilar da empresa, mas é uma janela da casa de uma família - dos filhos da paciência e netos da perseverança.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

NASCIMENTOS e FALECIMENTOS

Quem entra ou sai da Jacto pela portaria de pedestre passa imediatamente por eles. Bem ao lado das catracas erguem-se dois painéis distintos e bem confeccionados para comunicar os nascimentos e falecimentos na família dos funcionários.

O painel NASCIMENTOS tem a cor azul bem clarinho, já o FALECIMENTOS é de um azul mais solene. Ambos estão fincados lado a lado como esguias sentinelas, olhando para a rua e os prédios que formam o complexo fabril.

Mudos, mas como quem olha decidido e sem vacilar, fitam de frente todos que saem da empresa pela portaria de pedestres e proclamam:
- Eis aqui teus filhos e eis aqui teus mortos.

Não tanto pela estética ou design - mas pelo que anunciam - eles atraem meu olhar com o magnetismo peculiar dos nobres e ilustres personalidades. Não consigo passar por eles sem olhá-los. Vejo-os ao entrar e ao sair.

Seguro a respiração para ler o que FALECIMENTOS proclama, como se isso me ajudasse a sorver o anúncio todo com um friozinho na espinha. Já NASCIMENTOS me faz soltar o ar e um sorriso ao imaginar os rostinhos santos dos donos dos novos nomes apontados ali.

Invariavelmente gravitam em minha mente estranhos pensamentos sobre aqueles painéis, pois parecem que têm uma alma, uma personalidade e uma vocação. Chego até a pensar que quando sós, sem olhos que os mirem, passam o tempo desafiando-se e disputando o próximo anúncio. Imagino-os tambem angustiados, querendo comunicar algo a mais do que anunciam. Será que eles teriam mesmo algo mais a nos dizer?

Mas enquanto o eco da voz que ordenou-nos “crescei e multiplicai-vos” rebombar por aqui, NASCIMENTOS continuará renovando suas proclamações como o sol a cada manhã. Mas sei também que FALECIMENTOS não ficará atrás, pois a fome da sepultura ainda é grande, e ansioso aguardo o dia que será calada por aquele que a abandonou sem o auxilio de mãos humanas.

Até que esse dia chegue, para NASCIMENTOS e FALECIMENTOS não faltará serviço, nem mesmo em épocas de marola na economia.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Mudanças radicais

Há poucos dias ouvi de um dos acionistas do Grupo Jacto a frase: “vejo nossas empresas passando por mudanças radicais”. É claro que assenti, pois ainda que eu tente enxergar a empresa como eles não consigo. Sou míope e minhas lentes de contato não me dão o poder de ver com a visão telescópica dos acionistas e diretores, que com prudência e arrojo chegaram até onde poucos já conseguiram.

Mas como consolo, tateio um pouco melhor o que está perto de mim. Há uns dois anos vejo os alunos adolescentes da Escola Chieko Nishimura transitando pelos setores da empresa uniformizados com camiseta verde e realizando tarefas temporárias. Observo que alguns são trazidos à portaria da empresa pelo pai ou pela mãe, e até há quem chega com o pai e juntos passam pelas catracas, não mais como visita, mas como companheiros do labor.

Com a quietude característica dos sábios aprendizes e concentrados no que fazem, observo-os trabalhando esporadicamente próximo do meu setor. Quando os vejo absorvidos em uma tarefa ou recebendo instruções, atentos como filhotes de coruja, minha rotina diaria ganha trilha sonora e bate uma vontade de ser pai de todos, pois abrigam em si esperanças e sonhos com mais verdor que o uniforme que vestem. Com uma mão estão guardando os brinquedos da infância que se vai e com a outra saudam a alvorada da fase adulta com seus devaneios e com a pergunta que demorará em se calar: "quem eu quero ser? ".

Alastra-se em mim um entusiasmo quando penso que não estão à mercê de um mercado que mais exclui do que acolhe, colocando-os em um sofrimento solitário de um subemprego. Pelo contrário, a experiência deles transcende a realidade social e estão envolvidos pela fragrância inspiradora da vida do fundador da escola e pelo nome de sua esposa. Um casal que construiu no fim da linha do trem que desceram o início de promissoras viagens para muitas famílias.

Estes alunos são sementes, e com elas se plantam florestas. Por isso, logo após o fim desta crônica em oração me achegarei ao Criador. Êle que deu estas sementes ao semeador e dará crescimento à sua plantação. Rogarei que estas sementes não se percam, e se alguma se encontrar um dia em solo árido, que ao cheiro de poucas águas elas brotem e vinguem o sonho de quem as lançou.

De fato, até um míope pode ver mudanças radicais acontecendo.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

O primeiro DANFE ninguém esquece

Num clima que fundia tensão e ânsia fazíamos os últimos ajustes e revisões de configurações e dados, tentando encontrar algo que faltou ou foi feito equivocadamente que poderia quebrar nossa expectativa da emissão da primeira Nota Fiscal Eletrônica e a respectiva impressão do DANFE (Documento Auxiliar da Nota Fiscal Eletrônica) da Unipac em ambiente de produção.

Enquanto o Marcelo Pedroso transpunha a ponte da vibrante vida dos solteiros para a bem-aventurada dos casados, nossa jornada tinha que ter seu fim naquela noite de sábado e ponto. Ninguem queria adiar, ainda que o sábado tivesse que ter mais de 24 horas. Éramos como uma mulher que no momento do parto sabe que chegou sua hora e não quer resistir ou esperar mais, pois aguarda firmemente que os gemidos se transformem em risos.

- “Vou faturar e seja o que Deus quiser”: disse a Marcélia pouco depois das 22h, e clicou no botão Salvar da VF01. Os segundos se arrastavam enquanto acompanhávamos os status de transmissão e retorno ao SEFAZ. Mas assim que retornou o status “NFe Autorizada” foi como ouvir nosso nome em noite de formatura. Era uma recompensa olhar aquela bandeirinha quadriculada no monitor da Nfe no SAP.

E faltou boca em nosso rosto, pois quantas tivéssemos teríamos repletas de sorrisos. E se nossa pele tivesse o tamanho de um lençol de casal, nenhum milímetro ficaria sem arrepios.

O Paulinho trouxe da impressora o DANFE, e em suas mãos vi o documento como um infante segurado pelo pediatra. Parece que o impresso tinha cheiro, cor e textura tão fresco como de um bebê ou dos cadernos e livros que abrimos pela primeira vez.

Seguramos e passamos o DANFE de mãos em mãos como que abençoando-o ou procurando nele algum defeito. Houve quem discretamente chorou. Derramou-se por todos que correram muitas vezes como quem corre com um pé quebrado, mas chega. Isso mesmo, chegamos e o Grupo Jacto conquistou mais um quinhão.

Fotos não podiam faltar e nem os alvissareiros telefonemas e emails aos que gostaríamos de brindar junto aquele momento enquanto a noite já fazia juz às noites de outono, agradável e fresca como um lençol de cetim.

Assim, com a mente acelerada e o coração grato apagamos as luzes faltando poucos minutos para o domingo, e voltamos para casa sabendo que o primeiro DANFE nenhum de nós esquecerá.

Heron,
grato a Deus e à competência dessa equipe que me ensina todo dia.
O Ademar que fotografou e está atrás da câmera.


domingo, 8 de março de 2009

Uma relação quase incontida

Poucos meses após nossa mudança para Pompéia comecei a trabalhar na AFL na Rua Domingos Raggi. Cotidianamente, caminhando para casa no final do dia, enquanto este era suavemente sorvido pela noite como uma doce iguaria, assistia um gratuito e surpreendende espetáculo. Um comboio de máquinas Uniport, seguia batedores com luzes piscando freneticamente pela Rua Presidente Eurico Gaspar Dutra em direção à Av. Industrial para algum entreposto antes de serem repassadas às mãos de seus donos em algum lugar deste país ou alem fronteira.

Aquelas máquinas com os faróis acesos assemelhando-se a espadas de luz desfilavam como um exército em demonstração de força. Isso me fazia sentir como um figurante de um filme de George Lucas. À medida que a marcha continuava, me via entregue ao entusiasmo de um espectador impulsionado a aplaudir uma obra que não era ficção ou um produto de Hollywood, mas fruto real de idéias e trabalho que em gotas diárias ao longo de décadas produziu este oceano de tecnologia e vanguarda para o mundo.

Minha relação com as obras que fazem a história é um pouco estranha. Cada vez que as vejo penso em quem as fez, como viviam, quais eram seus desafios, satisfações e sonhos. Mesmo quando ando pelo centro de Pompéia observo a arquitetura das construções, seus detalhes e ornatos que de modo geral estão velados por modernos painéis das lojas e escritórios. Que mãos desenharam, e quais acentaram os tijolos e ornaram suas fachadas? Gostaria de encontrar uma foto deles, e ver seus filhos e suas roupas.

Como na criação relatada no livro de Gênesis, onde o homem recebeu do espírito de seu criador, sinto que nestas obras há um pouco da vida e dos dramas de quem suou e trabalhou até transpor a barreira do imaginário para o real. Os materiais e superfícies que formam tais obras, abrigam a história destas pessoas, carregando impregnada nelas o cheiro e emoção dos seus obreiros, faltando apenas ganharem uma alma.

Hoje, trabalhando no Grupo Jacto, geralmente chego de manhã na portaria antes das catracas abrirem. Ali, entre os muitos colegas que ao chegarem se acumulam como águas junto a uma comporta que se fenderá, ouço um pouco da estória de alguns que não se constrangem em falar para que ouvidos alheios escutem. Falam do desgosto ou da satisfação com o time do coração, do carro que não sai da oficina, do fim de semana trabalhado no aumento de um quarto para o filho que nascerá..., até que rigorosamente às 6:45h as gentis catracas dão passagem a todos para entrarem pela fábrica e escritórios como uma onda até então represada, levando consigo suas estórias para com horas e horas de trabalho trazer à existência as grandes idéias.

Se um dia me virem aplaudindo uma dessas engenhosidades alaranjada não estranhem, é porque minha relação com elas e com quem as fez tornou-se incontida.