sexta-feira, 13 de agosto de 2010

SHOW DO SOL

Não é difícil fazer do Sol um deus. Entendo pessoas e povos que fizeram ou fazem isso ainda.

Do quintal da minha casa, tipo sobrado, tenho o mesmo privilégio de um vigia sobre um muro. Posso ver os 360 graus do horizonte. Em cada grau de sua linha tem algo para admirar e ser contado. Mas dois pontos são marcantes: onde o Sol aparece e onde se esconde. Eles se transformam em palcos que apresentam um espetáculo gratuito e diferente diariamente.

Sempre que posso, procuro testemunhar estes dois instantes. Esforço-me para ser discreto e sensível o suficiente, para que nada se perca ou interfira nestes minutos quase sagrados. São momentos com roupas de um ritual. Respiro lentamente, com os pés querendo se soltar do chão. Sinto-me quase suspenso no ar.

As primeiras luzes esparramam-se por sobre os ombros do horizonte como um manto real. Anunciam o caminho daquele que reinará no céu no dia que inicia, e delicadamente proclamam às estrelas que elas serão empalidecidas. Em poucos minutos seu arco surge. Assim que os olhos, como janelas, deixam entrar pela alma a imagem do astro em sua primeira saudação, no peito, a marcha do coração acelera. 

Depois de banhar a terra como o mar banha a praia, dando o dia, o astro segue em direção ao poente que se tinge com cores e tons ardentes. O horizonte veste-se de um bordado com véus de cera em fogo. Assim se vai o Sol, como valente para sua tenda após a batalha, deixando-me com a mão acenando, quase venerando-o. 


Soltando o ar, olho pra cima e penso: Qual foi a reação dele, quando abriu os olhos pela primeira vez, e viu Aquele que o fez, entre todo exército de astros e galáxias?

domingo, 11 de julho de 2010

VOCÊ NÃO TEM UM CELULAR?!

Dois fatos corriqueiros provocaram minhas idéias recentemente. 
Fato um: Vi na TV o Joelmir Beting dizendo:
- Este ano alcançaremos a quantia de mais de um celular por brasileiro.
Fato dois: Um corretor, falando comigo pelo telefone fixo, pede-me o número de meu celular. Respondo que não tenho. Um silêncio reina do outro lado da linha por alguns segundos. O sinal de vida volta com a frase:
- Você não tem um celular?! Ninguém vive sem celular!

O Joelmir com sua informação, e o corretor com sua opinião, pareciam um relógio cuco na minha cabeça. Se para cada brasileiro há um celular, mesmo que seja do tipo “pai-de-santo”, que só recebe chamadas, retiraram de mim a pátria amada, pois não tenho um celular. E se ninguém vive sem um deles, onde vivo então? Senti-me como o membro mais novo do clube dos excluídos deste mundo - um verdadeiro morador de caverna com um tacape na mão. Quase me fizeram correr para as Casas Bahia, e sair de lá com o último lançamento numa mão e um carnê na outra.

Passei a dormir com a pergunta: “O que faz o celular ser tão desejado pelas pessoas, como foram os bichinhos virtuais para as crianças?”. Achei uma resposta no início da humanidade, onde temos as primeiras cenas no jardim do Éden, envolvendo Criador e criaturas. Estas cenas não foram mudas, mas regadas de comunicação boca a boca. Eureka! Comunicação tá no sangue humano! E com isso, as velas dos fabricantes de celular enchem-se pelos ventos dessa necessidade latente, de chamar e sermos chamados para uma conversa. Os presidiários que o digam.

Ainda que a vaidade, status e a auto-afirmação empurrem mais ainda o consumo deles, tenho me divertido em ser uma ilha cercado de celulares por todos os lados. Não é raro eu tomar sustos com seus toques escandalosos ou exóticos, alguns até divertidos. Quem ouve sem se assustar, uma repentina risada demoníaca ou um lobo uivando? Como não dá para evitar, o jeito é acostumar com este caleidoscópio de sons e timbres.

Admiro alguns destes aparelhos que têm o poder de sequestrar e abduzir quem os atende, quase levando até sua alma pra longe de tudo e de todos. Levantam seus donos de onde estão sentados, e os fazem andar pra lá e pra cá gesticulando, geralmente falando audivelmente coisas que jamais diriam sobriamente em público.

Há poucos dias, voltando de um passeio com o cachorro, arrepiado ouvi alguém em alto e bom som dando uma ordem pelo celular:
- Me traz o 38.
Minha esperança é que ele estivesse negociando algum par de calçado.

Assista aqui um vídeo da Nokia sobre a idéia de um celular, dobrável a ponto de mudar de forma, resistente, leve, impermeável e autolimpante.

sábado, 12 de junho de 2010

O DESFILE

Por várias vezes, sentei e fiquei olhando para a página em branco no computador tentando escrever este texto. Sentia-me diante de um deserto a ser atravessado com palavras. A tarefa de falar do Sr. Shunji Nishimura para o Informativo* deixou-me apreensivo e inseguro. Pois, se corro o risco de não ser justo ao falar de quem conheço, quanto mais do mito Nishimura. Explico o porquê: o mais próximo que estive dele foi em seu próprio velório.

Buscando ideias, revirei a internet. Quase me perdi entre as mais de 17 mil matérias que encontrei sobre a vida e feitos do Sr. Nishimura. Não seria difícil parafrasear uma delas, quase todas bem escritas. Mas, não está no meu DNA artifícios deste tipo. Além disso, a memória do seu Nishimura é digna de ser honrada por hábeis escritores. Eles são capazes de talhar com palavras a vida como um escultor faz com sua obra.

Mas, “se quem vê o filho, vê o Pai”, como afirmou Jesus, quem vê a obra, vê seu criador. Os feitos de Shunji Nishimura discursam sobre ele sem ajuda de palavras. Olhar para eles nos põe mais perto deste grande homem de pequena estatura. Sua trajetória é um contraste marcante na história da nossa geração.

Se fizermos um desfile de seus feitos numa avenida, nossas pernas seriam fracas para manter-nos em pé até o final da exibição. Passariam diante de nós milhares de alunos e técnicos. Todos formados no conhecimento e no caráter, pelas escolas construídas e mantidas por ele. Seguiriam outros milhares de máquinas. Cada uma delas, criadas para ajudar a produzir mais alimentos em quase todo mundo. Guardada pelos filhos, em um grande carro, estaria sua mais cara herança: gratidão, trabalho e honestidade. Encerrando o desfile, haveria uma multidão de pessoas e famílias que desfrutam de suas empreitadas. Uma destas famílias seria a minha, e quem sabe, a sua também.

* Esta crônica foi escrita para o Informativo da Unipac nº 7 de junho de 2010



terça-feira, 18 de maio de 2010

GRAÇAS A DEUS, É SEXTA-FEIRA!

Quem procura por pessoas entusiasmadas, provavelmente não as encontrará numa longa fila. Certo? Errado. Errado se a fila for numa sexta-feira, formada após o som da sirene de fim de expediente na empresa que trabalho. Como num toque mágico, o estridente gemido traz à existência uma multidão de pessoas enfileiradas movendo-se em direção às catracas da portaria.

Os trabalhadores surgem de seus departamentos alinhando-se um após outro, formando filas extensas. Ao chegar perto delas, a sensação que tenho é que estas filas transbordam ansiedade e motivação. Penso que, das duas uma: do outro lado da portaria tem “fla-flu”, ou picanha grátis. Das duas, nenhuma. É que a sexta-feira, em quase todo mundo é assim mesmo, amada e esperada como chuva no sertão.

O entardecer da véspera traz consigo aroma e clima de reveillon. Mas o despertar da sexta-feira tem um bom humor quase globalizado. Esta sensação já foi consagrada no cinema, na música e nos negócios gastronômicos com a sigla TGIF (Thank God, It´s Friday), que é mais ou menos “Graças a Deus, é sexta-feira!”.

Neste dia observo carros, roupas, sapatos, maquiagens e sorrisos que estiveram guardados na semana. Saíram dos armários para vestirem por fora os que querem ser diferente por dentro, ou simplesmente quebrar a rotina nas próximas 48 horas. Entretanto, mesmo que nada mude, parece que o peso da rotina e das contrariedades é aliviado pelas cordas da esperança.

Sinto que a alma da nossa raça é assim mesmo. É dada a amar, viver e encharcar-se da esperança renovada diante de qualquer sinal de mudança. Cada ciclo que Deus fez para marcar os tempos, tem esta química de dispor novas oportunidades. Saturar os espaços da mente com o que traz esperança não é utopia ou ópio. Essa atitude é um recurso de quem quer construir a felicidade ao invés de viver buscando-a. São coisas do criador para sua amada criatura. Então, graças a Deus pela sexta-feira!


domingo, 25 de abril de 2010

INQUIETANTE PERGUNTA - Adeus 'seu' Nishimura

Na última sexta-feira duas palavras entraram por um dos meus ouvidos e não quiseram sair pelo outro. Elas se embrenharam com minhas idéias durante o almoço de comemoração pelo dia do trabalho aos funcionários da Jacto. As palavras nos chamavam de “honrados funcionários”, e formavam as ultimas frases de agradecimento aos que trabalham na empresa. Imediatamente a pergunta “porque honrados funcionários?” começou gravitar meus pensamentos. Mas diante dos clamores de fome do estomago, minha mente foi induzida a pensar mais no almoço do que naquelas palavras.

Entretanto a questão foi respondida na noite daquele dia. Vestindo uma camiseta com a nova logomarca da empresa estive com minha família num grande evento regional. Um deputado que andava entre os populares ao ver-me com aquela marca, estendeu a mão para cumprimentar-me, e disse ao pé do meu ouvido: “Você sabia que o seu Nishimura faleceu hoje à tarde?”.

Não sei se foi pela cara que fiz, mas o político afastou-se do mesmo modo fugaz que veio. Triste, mas surpreso lembrei-me daquelas palavras ouvidas no meio do dia. Naquela hora, senti-me um funcionário honrado ao receber a notícia da morte do fundador da empresa que trabalho através de um deputado em meio a tantas pessoas. A honra daquele patrono desceu até os funcionários mais distantes, assim como a glória de Cristo descerá sobre todos que nEle confiam.

No sábado o sol puxou uma cortina de nuvens e escondeu-se atrás delas. O dia nasceu solene, como que guardando um luto solidário aos pompeienses. No velório num ginásio, encontrei um lugar ao fundo. Ali em pé, via uma pequena multidão sentada à minha frente. Um dos filhos do seu Nishimura, representando a família, confidenciou aos presentes que seu pai não desejava que no seu velório chorassem por ele, mas que o aplaudissem.

Em seguida algo marcante aconteceu. De onde eu estava vi formar-se uma verdadeira “ola” como num estádio. Iniciada pelas pessoas nos primeiros lugares, e sucessivamente imitadas pelas de trás, num gesto contínuo como uma onda, todos se levantaram dos acentos e aplaudiram ruidosamente até chegar aos últimos. A sensação foi intensa como de um coquetel de alegria, dor e gratidão. E cresceu ainda mais quando olhei ao lado e vi, com as mãos batendo uma contra a outra, o tal deputado que na noite anterior foi um simples mensageiro para responder a inquietante pergunta “porque honrados funcionários?”.

Heron Caetano
As fotos foram obtidas do site www.estounanet.com.br