domingo, 22 de maio de 2011

PÁRA AI MOTORISTA!

Existe cidade de todo tipo. Conheço uma comprida e estreita como um riacho. Suas principais ruas são como nossas veias que vão da cabeça aos pés. Um par de linhas de trem, como espinha dorsal, divide-a em duas partes: norte e sul. Cada uma é servida por uma linha de ônibus circular, que trafegam num vai e vem quase reto, feito boi no arado. Os próximos parágrafos te levarão a um breve passeio por uma dessas linhas.

A linha do lado sul dá duas alegrias aos usuários a cada vai e vem. A primeira é quando o passageiro sobe no ônibus, já que a espera no ponto acabou. A segunda é quando desce. Os que ocupam os lugares próximo à saída do veículo são testemunhas disso. Assim que a teimosa porta abre, não é raro ouvir de quem está saindo:
- Descer é melhor que subir!

Ritmado por solavancos, o veículo segue seu trajeto. A cada parada, os sons e ruídos do ônibus tentando sair parecem cantar:
- Daqui não saio, daqui ninguem me tira.
A emoção não acaba por ai. Ela domina geral quando em notas altas, ouve-se em coro os passageiros clamando:
- Pára aí motorista!
Pode ser um vovô, ou alguma mãe com crianças fora do ritmo do condutor, na intenção de descer ou subir.

Justiça seja feita. Nem sempre o motorista perde o ritmo por causa de quem paga para andar. Não é qualquer um que aguenta como ele tantas horas sentado. Ainda mais sobre um banco apoiado por um pedaço de madeira, que sabe-se lá, até quando o manterá sentado acima do chão. Há de se tirar o chapéu também para o cobrador, que anda ausente nos últimos dias. Sua falta permite ver melhor onde ele assenta-se, o que faz pensar que conforto é uma sensação estranha naquele lugar.

Cada percurso tem seu tempero de gente e de situações. As conversas são soltas, tanto com quem está ao lado, como pelo onipresente celular. Ora são divertidas ou fugazes, e por vezes, dramáticas. De um modo ou de outro, salvam do tédio qualquer um. É gente que trabalha, estuda, sonha, paga conta e impostos. Quem sabe, com boa vontade de quem manda, essa gente ganha transporte de gente. Mas nenhum decreto pode fazer valer mais o que dá graça em cada viagem: a vida que corre em cada um que vai e vem pelas veias dessa cidade.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A VELHA SURDA

No tempo da TV em preto e branco, eu e minha família ríamos muito com a Velha Surda do programa Praça da Alegria. Ela chegava cantando "ó querido, ó querido, ó queriiiiido Clementino", e sentava no banco da praça, entre o Manoel da Nóbrega e seu Apolônio. Por causa da surdez, trocava o sentido de toda conversa com seu Apolônio, irritando-o e atrapalhando a leitura de seu jornal. O encontro  sempre acabava com o Apolônio comendo o jornal, de tão nervoso que ficava com a conversa cheia de mal-entendido.

A falha na comunicação é uma questão que tira o humor de muita gente há tempo. Desde o fato da Torre de Babel, geralmente a quebra da comunicação é o mesmo ingrediente que azeda a vida de casais que se separam, ou deixam edifícios tipo arranha-céu sem terminar. Todos envolvidos, tanto na família como no trabalho, acabam amargando na boca, por bons tempos, o gosto de jornal que o seu Apolônio toda semana provava.

Parece exagero a narração bíblica da Torre de Babel. Toda humanidade uniu-se em torno da idéia de construir uma torre que chegasse ao céu, para tornarem-se notáveis. O edifício subia a toque de caixa. O motivo do aparente sucesso, diz o livro sagrado, é que todos falavam uma só língua. Aborrecido com o sentimento de arrogância no coração humano, Deus fez a comunicação deles ficar bem parecida com a do seu Apolônio com a Velha Surda. Com isso, a torre fracassou, o povo  espalhou-se, e surgiram as nações e línguas da Terra.

Repito, parece exagero. Entretanto, não é só o Criador que conhece o valor que tem a boa comunicação para o sucesso dos projetos, quer eles sejam bem intencionados ou não. Escrevendo esta crônica, ao meu lado tenho a última edição da revista Seleções, de março de 2011. Na página 138, está o resultado de uma pesquisa sobre a opinião das pessoas, quanto ao que une as nações. 53% dos brasileiros entrevistados responderam: A mesma língua. Pelo menos nisso, a voz do povo, é a voz de Deus.

domingo, 20 de março de 2011

NEM QUENTE, NEM FRIO

Enquanto meu pé apertava o freio do carro, numa esquina, um ruido de vassoura varrendo mexeu comigo. Do meu lado vi uma mulher esguia com gestos de gente aflita. De vassoura nas mãos, ela mais brigava com as folhas na calçada, do que as varria. As folhas arrancadas pelo vento do outono que chega hoje, dançavam ao lado dela. Percebi que não se importavam se a senhora tinha pressa ou não. Parecia que elas tinham todo tempo do mundo para aquela brincadeira.

Escutei o ruído delas fugindo da vassoura e se arrastando pelo chão. O som parecia mais um cochicho entre elas, combinando mais um drible na dona vassoura que tentava ajuntá-las. Coisa de criança solta na rua, entregues à vontade da meninice.

Isso me fez lembrar que hoje à noite, o senhor outono, sóbrio e sereno, inicia seu reinado entre o verão e inverno. Nem quente, nem frio. Sem exageros, ele muda a natureza e as pessoas. As vitrines e os corpos exibem com elegância novas roupas. Os rostos femininos se cobrem de maquiagem, deixando a pele com aparência de pêssego. A mesa e os pratos ganham sopas à noitinha. A mente se renova tambem. Como disse Nietzche, "o outono é mais estação da alma do que da natureza“, pois os pensamentos tornam-se mais reflexivos.

Aliás, saimos de um verão aquecido e marcado por tragédias, parecendo um trailer do apocalipse. Entre enchentes e terremotos, ver a solidez de uma nação como o Japão, de um dia para outro ser sacudida como folhas no vento, é pra fazer dos caipiras aos doutores pensarem na vida, na morte e nos seus amores.

Com certeza, depois da irreverência do carnaval, a rotina das tardes vermelho-alaranjadas, arvores se despindo, e ruas com folhas amontoadas, darão o clima para escolhas e decisões importantes para esta vida cheia de outonos. Quem tiver ouvidos, ouvirá a suave voz do Criador das estações, sussurrando na brisa palavras de ânimo e amor às suas criaturas.

Soltei o pé do freio e acelerei para avançar. Numa ultima olhada para o lado, vi que as folhas se entregaram à vassoura como borboletas cansadas na rede do caçador. Num só gesto, a senhora esguia põe elas num saco e ajeita o cabelo. Fechei a janela do carro, pois o vento soprou mais frio. É o outono nos abraçando.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O CÚMPLICE DE LORETA

Loreta era quem mais gostava do ano novo naquela família. Na verdade, ela gostava mesmo é do início das aulas e dos cadernos novos. Filha caçula, tinha mais três irmãos que sonhavam, um dia, jogar futebol em time grande.

A história deles é curta. Um entrou na escola militar, casou moço e aposentou na polícia. Outro forjou casamento de papel passado com uma neta de japonês para trabalhar no Japão, ganhar em dólar e voltar ao Brasil. Não voltou. Morreu em um terremoto. E por fim, o mais velho, abriu um mercadinho no bairro. Prosperou e hoje é dono de casa na praia, onde passa a maioria dos dias. Nenhum virou jogador de clube de elite.

A sina de Loreta, a menina que sonhava com o primeiro dia de aula, foge do trivial. Um prazer sem explicação tomava conta dela ao abrir a primeira folha de um caderno. Olhava sua brancura riscada pelas linhas que esperavam suas palavras. Pousando as mãos sobre a folha, suspirava o cheiro de papel novo e sonhava com as letras. Ela sabia que estava diante de algo que seria mais que um amigo durante o ano, seria seu cúmplice.

Nos cantos das páginas, escrevia suas obrigações e a lida de ajudar no cuidado da casa e do avô doente.  Para dar sabor aos seus dias, cuidava de comprometer-se com as palavras em seu caderno. Combinava com elas que faria o necessário, mas quando possível, iria alem. Levar o avô para a quimioterapia era preciso. No caminho e na espera da vez, fazia algo a mais, enchendo o ouvido e coração do velho com histórias de cavaleiros e dragões libertando povos oprimidos. Na cozinha de todo dia, cortar cebolas transformava-se na arte de deitar anéis de cristais sobre saladas de encher os olhos.

Enquanto isso, a caneta ganhava as bordas do caderno e páginas escondidas traçando como fazer o melhor possível para aqueles dias. Entretanto, para o futuro mais distante, as palavras vestiam-se de profecia, pintando um quadro praticamente impossível para aquela adolescente mirrada.

Mais tarde conheceu Genésio, que fazia campanha para vereador. Genésio ganhou a eleição - e a Loreta como namorada. Noivaram e casaram enquanto a carreira do político subia como rojão de São João. Virou diplomata e foi morar com a esposa na Europa. Na terra do povo de olhos e pele clara, Loreta escreveu livros e mais livros para crianças, ao lado de seus cadernos, cúmplice do necessário, do melhor possível e do impossível.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

FOI COISA DE DEUS

Naquela manhã de quarta-feira, entrou em São José do Vale do Rio Preto um vento estranho, e o céu enegreceu rapidamente. Água e esgoto brotaram dos ralos da modesta casa de dona Ilair. Com a agitação na casa, seu pequeno vira-lata Beethoven saltou do tapete que dormia sem a costumeira espreguiçada. Ao lado do casebre, num prédio de três andares, o vidraceiro Gilberto e colegas preparam-se para iniciar mais um dia de pintura do edifício. Dia que mal eles sabiam, estava encomendado para que fossem personagens de imagens vistas em telas de todo planeta.

Conferiram as ferramentas. Entre elas não podia faltar a corda para auxiliar na pintura externa. Pouco tempo depois, Gilberto e seus colegas, do alto do prédio vêem as ruas desaparecerem sob lama, pedras, galhos e arvores arrastados por um repentino dilúvio. O prédio de três andares só mostrava dois fora da água. No meio de toda tensão alguém vê uma mulher em desespero na laje da casa ao lado. Era dona Ilair, em puro pavor, com o cão Bethoven no colo. Ela não quer morrer, pois tem filhos para criar.

Se fosse filme, diriam que foi marmelada o que sucedeu naquela hora. Providencialmente, uma longa corda é lançada do alto do prédio para puxar a mulher. Em dia de dilúvio, pinceis e brochas servem tanto quanto peneira para se esconder do Sol. Mas uma longa corda, amarraria os planos de dona morte, e permitiria dona Ilair viver para dos seus filhos cuidar.

Parecia que tudo estava ensaiado. Na primeira tentativa, a mulher se amarra perfeitamente, e com o cãozinho abraçado de um lado e corda do outro, ela se lança na correnteza. Beethoven e sua dona afundam, e sem que olhos vissem, o animal finca seus dentes no braço de dona Ilair, forçando-a a soltá-lo. O que deu nele ninguém sabe. Pode ter sido uma reação louca, ou quem sabe, ciente que sua dona precisaria das duas mãos para aquele rapel, adiantou seu fim, para que ela não sentisse a culpa de ter que fazer o que fez no meio da escalada.

Beethoven, como todo cão, nunca leu a Bíblia ou ouviu um sermão. Entretanto, sem ter dito sequer uma palavra em vida, certamente deixou lições de fidelidade, paciência, amor e compreensão.

Gilberto, ao ser nomeado pelos jornais como o responsável pelo salvamento, respondeu:
- “Não sou herói. Herói não existe. Foi coisa de Deus mesmo. O herói foi Ele. A gente só foi a ferramenta usada por Ele”.

Neste dia eu vi nas mãos de Gilberto uma simples corda, e nas mãos de Deus, um humilde vidraceiro.